sábado, dezembro 30, 2006

A FORCA DA PAZ E AS BUSHIMPUNIDADES














Cansatividade,
radiocansatividade dos outros
sobre nós, em cima de nós.
Os vossos pedidos não serão atendidos.
As vossas requisições serão rechaçadas.
Agora ficareis dependurados sadamianamente
já que sadomasoquistiastes a minha frágil paciência de Job.

Ó cansaço cansativo da vossa radiocansatividade
de nos requerer utilitariamente como se fôssemos coisas vossas à mão,
a que deitais a mão em impulsos sôfregos!

Pronto, acabei de versejar sobre uma coisa completamente outra
num dia de forca apressada.
Foi a forca da paz.
Foi o exemplo pela forca.

O cinismo internacional soma e segue!

O novo ano será auspicioso,
só pode ser, já se vê.
Começará após a lixívia de esta Pena de Morte aplicada sem demora.
Começará depois da pólvora, da mecha, do TNT etnicida desencadeado.

O mundo precisa de um Tribunal Penal Internacional
para fazer justiça com ditadores vivos,
com líderes africanos corruptos,
com régulos brutais,
com governos irresponsáveis
e onde a pena aplicada seja a reparação em dólares,
em reposições, em compensações e em prisão perpétua!

Até quando haverá planetárias bushimpunidades?


Joaquim Santos

sexta-feira, dezembro 29, 2006

BACH E BOTTICELLI




Zweiter Teil
Am zweiten Weihnachtsfeiertage

Lukas 2, 8 - 14

23. Choral

Wir singen dir in deinem Heer
Aus aller Kraft Lob, Preis und Ehr,
Daß du, o lang gewünschter Gast,
Dich nunmehr eingestellet hast.

J.S. Bach - Weihnachtsoratorium BWV 248


Joaquim Santos

Obrigado, Ergotelina. Eucaristeia.

POEMA DO TOALHETE QUE TEVE SOBRE SI (NEM) UMA SOPA (NEM) UM PREGO














Po(e)(s)tarei hoje
sobre o frio por dentro de quem é perfeito.
Farei versos a quem é cumpridor e competente
acessorados por um mau hálito excepcionalmente equivalente.
Cantarei ilimitadamente os que não falham letra nem alínea,
esses caralhos do erro ortográfico, mas da Lei sabida e consabida.

Farei odes, bigodes, sonetos, aos cabrões dos amigos iguais, leais,
animais, anormais, irregulares como a piça
no que pensam e decidem sobre o que somos e fizemos,
os pulhas,
e que sorriem com o sangue que os outros vertem,
com a dor que os outros sofrem lá no segredo dos seus artificiais
corações floribelos.

Vivam, vivam vocês, ó filhos da puta todos,
tolos,
ministros do bem incomum e bem-posicionados no acesso ao euro,
Hiu, hiu, cagamerdeiros, mijem na agulha, mijem n'agulha,
Cornudos atá mangueira.
Urra, arre!, pela alegria legal e lícita,
mas não legítima, dos 12 mil euros mensais-zinhos.

Ó leis,
ó prerrogativas filhas da puta,
devorai-me que não percebo as subtilezas vossas!
Soterrai-me, ó poalha-merda partidária e suprapartidária
porque não chego ao vosso requinte de amerdalhamento curricular!

Chamai-me à pedra,
queimai-me na pira dos vossos processos amontoados,
fulminai-me aqui e já
se tresleio serdes mais, muito mais!, que eu, que nada sou e nada tenho!
Claro que sois!
Admiti que sois sóis de rectidão e justiça.
Falecei-me com a vossa excelsa verdade certa,
como deuses da processualidade adequada, regulada e estatuída.

Ide, tendes a paz, a pose e o arroto na importantibilidade de Directores Gerais,
tendes o euro,
engordais todas as semanas, todos os meses engordais.
Tende ânus de gordurosa, cevadíssima, poupança,
panças fartas de furto e justificada sem-vergonheira em tudo
a bem do Partido Chulo, do Partido Puta.

Eu é que sou uma amostra nula da espécie humana
porque não consigo isso do furto legal e tenho de ouvir
olhares coveiros gritar:
«Vede como veste mal!»;
«Vede o desleixo da sua barba de dias.»

Sim, votai-me ao desprezo, um desprezo de classe;
exluí-me de isto de ser só povo, é mister que me excluais mais e mais ainda.
Eu, longe das vossas festas combinadas,
longe das vossas premeditações de me convidar ou não convidar,
longe, bem longe, da vossa intencionalidade de me punir e excluir
por qualquer coisa que nem sei.
Eu, longe das vossas bandas e fanfarras e bebedeiras
e reuniões cúmplices.

Eu, de fora do vosso parque infantil,
da vossa superficialidade,
dos vossos ciúmes pela atenção por mim dada em tal festa
ao amigo do amigo do amigo do vosso amigo e não a vós.

Tirai-me isto de ter de morrer tal como vocês,
salvai-me de, no primeiro dia do ano,
ter de rir convosco as mesmas caganeiras, álcoois,
baforadas de erva tabágica ou outra
e depois o vómito redentor!

Ficarei aqui a construir humanidade com este paleio cromado
e a falar chinês para ti, puto.
Tu, puto, que não entendes linguagem para além do 'tá tudo'.
Vai lá, então, ser alguém-zinho, vai pró caralho!
E vós todos, mal resolvidos e mal fodidos,
que dais o cu e três tostões por fazer número
porque na verdade não tendes alternativa nem sabeis estar a sós,
fazei-me o favor de nem sequer pensarem em ler este merdapema,
este poemerda, este poe-de-mé-mé,
tora-cu de sinceridade falsificada,
como já nem sequer haver Natal
mas só o Polónio 210
de uma amizade falida!

Cobradores de gestos!
Reparadores de atitudes!
Contabilizadores de omissões!
Viciados no poderzinho!
Líderes no índice da popularidade!
Clownescos na estupidez vitalícia!...

Meus amigos, caros concidadãos,

Vão-se foder todos!
Feliz Vão-se-Todos-Foder!

E Pão Ano Novo!


Joaquim Santos

domingo, dezembro 24, 2006

VOTOS















A todos os meus amigos e leitores,
desejo um Natal intenso
e essencial,

por isso mesmo feliz!

Joaquim Santos

sábado, dezembro 23, 2006

POEMA «É CARNAVAL TODO O ANO»














Quer um homem queira
quer não queira,
é Carnaval todo o ano:
há armadilhas multicolores,
há apelos mentirosos, tentadores
abrem-se-nos as fauces dos papéis de embrulho de qualquer coisa,
menos da Verdade, uma Verdade essencial e não privatizável.

Pais, tios, sobrinhos
concorrem no pagamento do imposto de serem amados e lembrados.
Avós vêem-se sentados na praça hipermercádica,
onde se sorvem cafés,
exaustos de se entontecerem
e de hesitarem nas grandes superfícies:
brinquedos, jogos, roupa, wiskey, chocolate... Netos!

Rubicundos, os avós arfam e cascalham entre si da aventura mercádica.
Como é belo que os avós babem pelos netos!

É Carnaval todo o ano e o Natal
está moribundo por causa das barbas brancas
e da Coca-Cola que produtificam a época e a esvaziam..

Sim, há jantares de empresa,
de corpos docentes, numa autópsia de baldas e cumpridores,
num balanço de bem vestidos e desleixados,
há agora jantares de todo o tipo e feitio - são os jantares de Natal -
e toda a sentimentalidade jorra,
todo o fumo, toda a gula se transformam em verdade e vida
e faz-se luz:
é o espírito de Natal.

O 'espírito de Natal' é haver Carnaval em que tudo se troca,
trocam-se os papéis, trocam-se as identidades,
faz-se a feira, a degustação do excesso.

Em África é que pode haver Natal,
na Ásia profunda,
no Cáucaso é que pode...
Onde a ceia é somente um pouco menos pobre,
e onde haja frio e fome e pó,
cães lazarentos disputando migalhas com crianças,
famintas, alimentando-se de ar e com moscas e ranho e lágrimas,
aí é que o Natal é Verdade.

Aqui não.
Aqui já temos os brinquedos caros, comemos e arrotamos por dias a fio
e não pensamos em mais nada.
Aqui os mecânicos abusam da clientela,
a clientela abusa de quem tem ao seu serviço,
e tudo vai girando de injustiça em injustiça.

O Natal de Jesus e a teologia da condescendência divina
não interessa a ninguém e partir-te-ei o pescoço, Isaac,
se me vieres falar ou tentar falar de religião outra vez.
Caralho, pá, não estou interessado em argumentos engatilhados.
Poupa-me a conversas sobre religião à queima-roupa que não abrem diálogo nenhum,
mas apenas antena à tua perspectiva unilateral enciclopédica
de campeão em blaterar sobre religião.

Um dia, o Natal será «Estomacal» e dir-se-á:
«Feliz Estomacal!»...
E dar-nos-emos prendas na mesma, e tudo encaixará perfeitamente.
Família? O Natal é pensar na família?
Não é. É uma carga de trabalhos que acomete as mulheres da casa
é uma jantarada apática e cada vez mais vazia
cheia de prendas.

Um dia, o Natal será «Glacial»...
e dir-nos-emos: «Feliz Glacial!».

Sim, porque nós que já congelámos entre os produtos,
seremos glaciários de uma glaciação real e implacável.

É Carnaval quando um homem quiser.


Joaquim Santos

quinta-feira, dezembro 14, 2006

AS RODAS DA TUA CADEIRA














Tens o corpo retorcido e és recto.
Tens a mente brilhante e lúcida,
mais brilhante ainda o Teu olhar
mas o Teu discurso é nublado na baba
de uma articulação sofredora para Ti,
mas o teu pensamento é límpido,
afiadas e certeiras as tuas palavras.

És sentencioso, mas justo.

Zé, pareces-me a silhueta enerme, mansa, enorme
do Deus a Quem sempre adorei apaixonadamente
e que me fala, quando falamos.

Falas, caminhas sentado,
movimentas as tuas pequenas pernas
e as rodas da Tua cadeira deslizam:
sobes rampas, desces rampas,
vences obstáculos,
sob o sol e sob a chuva.
Tens humor e tens justiça,
tens a indignação pronta
contra as vacas que povoam de acrimónia
as salas da docência e da maledicência.

Tomas a tua meia-de-leite por uma palhinha
e dou-te a comungar "Belgas", essas bolachas
amanteigadas,
cada vez mais pequenas
e parcas nas suas respectivas embalagens cromadas,
o que Te desconsola, e és rápido a devorá-las
crocantes, de um tom de hóstia amarelada.

É então que me analisas melhor.
Falas do meu quinto andar desarrumado e do meu labirinto,
de como danço o tango da complacência em vez de o rock do rigor,
com este último derrotado e aquela hipertrofiada.
É quando me chamas filósofo hiperssensível
e me dizes evangelhos de música.
É quando repetes o quanto te aborrece
a imposição seja do que for,
mesmo da democracia,
mesmo da liberdade,
que a Europa, no passado,
e os Estados Unidos agora
exportam a ferro e fogo
com a marreta dos seus interesses disfarçados...

Terminas o Teu lanche, meu Deus, e regressas ao Teu computador, Zé,
em que és Rei e Senhor.
Despeço-me de Ti renovado.

Puro e recto, repito, é como és
e falas das putas e dos cabrões
e tens piadas sexuais com as quais ris muito.
Andas melhor informado que o maior dos mexeriqueiros,
mas tens a língua limpa
e mais limpo ainda o coração de opiniões surpreendentes.

Deves ter vindo para desarranjar-me as revoltas
e os inconformismos materialistas que nunca tive
e só agora tenho.

Deves ter vindo lembrar-me que a minha prioridade és Tu,
o Teu fardo leve e o Teu jugo fácil são a minha prioridade.

Deves ter aparecido diante de mim para me atenuares
a fúria d'alma hoje,
na arena dos enganos,
toureado pela mentira com o meu consentimento.

Vieste lembrar-me que não posso servir a dois senhores
ou pôr entre parêntesis o meu favorito e Verdadeiro
por um prato de lentilhas.

Vieste rir-te comigo
da minha cara de bicho teimoso.

Ámen, Zé.


Joaquim Santos

terça-feira, dezembro 12, 2006

TUDO SOBRE LARANJAS, TANGERINAS E TORANJAS














A bola rola, e pronto,
não me apetece ser amiguinho,
mas só correr para ganhar,
ser combativo e honesto
ou não me saberia bem mais nada.
O que quero é descascar cada vitória,
pilantrear o pilantra que tiver pela frente,
fazer tremer o adversário
com sprints inesperados,
com cortes importantíssimos
e golos determinantes com que se não conta
lá mais para o fim do tempo.

Como laranjas quando posso
e tangerinas no tempo delas,
cheiro toranjas numa surpresa de hipermercado.

O cheiro da toranja dá-me uma sensação de infância e frescura indescritíveis.

Reparei no último ano
quanto de naturalmente laxante
há em três laranjas grandes pela manhã
só para que tudo funcione ainda melhor.

Tem tudo a ver!!!

Laranja é chorar por faltas,
inventar penalidades,
gritar golo até rebentarem as hemorródias,
é garantia de divisões e discussões
nas horas adversas,
e jogar sornamente atrás,
devagar e devagarinho,
quando as coisas correm bem,

Pelo contrário, se nós, os azuis, ganhamos é caladamente que ganhamos;
se perdemos é caladamente que perdemos:
a cor azul vai somando e ganhando silenciosamente.

Laranja é uma cor imberbe e lacrimejante,
não me entendam mal: eu gosto de laranjas,
gosto de consumi-las e comê-las,
e sobre as suas cascas
deposito agora mesmo,
não uma coroa de flores,
mas o sinal brincalhão da minha
mais profunda e sincera
homenagem
de amor e amizade:
obrigado, laranjas, por se deixarem comer por mim!

O meu sentido de humor
a minha fome de vitória,
e a minha paciência
são inesgotáveis.

Os meus amigos e colegas de futebol
é outra conversa.


Joaquim Santos

segunda-feira, dezembro 11, 2006

OLIGARCAS DA FACA














Não sei que champagne celebre a morte
do mal que está feito,
não percebo que foguetes,
que pinotes
por um Pinochet
defunto.

A tirania apodrecia já,
quando os tubarões engordavam
de humanos corpos,
torturados,
a ditadura tinha já problemas coronários,
crueldade e obstinação
raticida, fungicida: «muerte al rojo!».

Por eles, pelos fuzilados,
por aqueles a quem se deu sumiço,
a quem se arrancou olhos e unhas,
a quem se roubou família e vida,
num negro Chile,

siberiano,

imundo,

que nos fique claro e definitivo
que justiça cabal
não é coisa deste mundo.

Joaquim Santos

quinta-feira, dezembro 07, 2006

NO DEFUMATÓRIO














Baço,
este vidro húmido,
estas barras de alumínio,
recortam a árvore suprema em frente,
quase cálice de brandy com seiva e hastes só no topo nuas,
fechando-a em puzzle.

Elárvore oscila ao vento,
os ramos obliquam-se-lhe de parte incerta vento.
(Vermelheja um carro que nos dá a escala).
Ralas e amarelecidas
resistem as suas folhas
numa cor só agora imitadora
de como em crianças desenhávamos o sol.

Nesta sala docente sem docência,
é habitual um fumar doente,
último reduto de névoa e margem.
O fumo fica,
entranha-se,
fossiliza,
torna-se uma só coisa com móveis,
chão,
assentos.

Um fumo fêmeo de séculos rescende das paredes,
grita ansiedades plúmbeas,
tem unhas de frustração,
sorrisos de convívio com fumo macho igual,
enxofre e alcatrão sedimentados
como num infernal vulcão
e conversas que «não saem daqui»
nem passam a arte ou a lei.

Fumo fêmeo de centenas de alminhas
docentes volitando ainda aqui, que cheiro, meu Deus!,
no seu terror por cadelas turmas,
no seu chichi gotejando tímido,
pela via-sacra do ensino
espezinhado,
em aflições represadas,
chichi nesse pano íntimo,
nesse tecido que freme
já e ao fim do dia
por liberdade
como por água
e detergente.

Joaquim Santos

domingo, dezembro 03, 2006

DA PUTACASA SEM MISERICÓRIDA













Um ou dois tiros de caçadeira bastariam.
Ou um de um mini-canhão por um bom artilheiro.

Em ninguém esses tiros.

Somente na velha caixa onde se apoia aquele globo transparente
dos sorteios falsos,
falseados,
fraudulentos,
das bolas que giram,
magna ilusão de óptica,
magno ilusionismo sobre a credulidade colectiva,
um ou dois tiros
para que todos vissem
o predeterminismo daquela merda
e percebessem que as bolinhas multicolores sorteadas
não vêm ou pingam de cima,
aleatórias, em sorte, girando com vento nelas,
mas que elas só giram para enganar o parolo,
e que brotam de dentro e de baixo,
escolhidas a dedo
pelos cálculos
reguladores,
gestores
e sornas
de um super-computador
hiper-eficiente
e tão filho da puta
como os filhos da puta que o pariram.

Tudo porque os números gordos vendem mais que a partilha magra
e é preciso garantir isso.

O país nunca aprenderá que é, também aí,
enganado num ludíbrio nacional que, no entanto,
vai enfraquecendo na adesão que merece
em favor de um magnoludíbrio euro-internacional igualzinho,
só que aparentemente mais promissor e dourado!

Completas Falácias!

Veja-se a subtileza das câmeras,
até elas cooperantes com o logro: focam as bolas que rolam,
nunca o desentranhamento delas.

Veja-se as caras sem-abrigo dos representantes do Governo Civil
ou sei lá do quê:
tristes,
perdidos,
como que retirados de sob edifícios
e suas reentrâncias,
puxados para fora das suas camas de cartão,
lavados e barbeados à pressa,
à pressa despiolhados,
ei-los ali, inúteis, focados um segundo,
feios, num sorriso amarelo amordaçado, mas que grita:
«isto é uma aldrabice, fujam que fede a merda»,
ei-los ali, os sem-abrigo dos fiscais, dos observadores espantalhos,
ali para sofrer uns minutos de mentira conspirativa
contra o que o povo supõe ser limpo,
mas ainda assim estátuas bem compenetradas
sob a música deprimente de um músico bêbado ao teclado,
de motivo musical em motivo musical,
e a diarreia verbal da Cirenela
paga e bem paga para rir,
para sorrir, encorajando ilusões
e papaguear promessas
de sorte da treta.


Joaquim Santos

sábado, dezembro 02, 2006

À SUBTIL ROEDORA E AVE


















Não sei de nada:
perante a Sobreira assim,
numa pose bombástica como esta,
convidando e provocando,
desatam-se-nos os nós,
cede-nos a sede,
canta-nos a Carne
e é-se todo
corpos cavernosos,
tecido eréctil em festa,
até ao ângulo da fome mais juvenil,
mais vertical, portanto, mais sôfrega.

Fulminar tal roedora irrequieta,
(ó delícia!)
tal ave rubra em baba,
(ó doçura!)
até à liquefação mais consolada,
quando então se faz música!

Joaquim Santos

terça-feira, novembro 28, 2006

BENTA SÍNTESE LAMINADA














Para além de todas as facas
de esta gente pacífica, bem intencionada
e ignorante, hábil no grunhismo infernal,
para além de todas as lâminas recurvas,
do vício da indignação alarve,
de todas as ameaças desdentadas e barbudas,
de todos os desdéns que afinal o que querem é comprar,
de todas as teologias de contraditação:
(«Jesus não é o Filho de Deus.»)
de todas as facas recurvas,
em crescente lunar,
de toda a ferrugem nas facas-meia-lua.

Para além de toda a mentira,
de todo o preconceito,
de toda a violência pacífica
e de toda a paz violenta,
de toda a guerra,
de toda a arma,
de todo o grito,
de toda a bomba suicidária...

Para além disto e de mais do mesmo...

Em todo o sítio e lugar,
no Cosmos e para além do Cosmos,
é Cristo que Reina,
é Cristo que Vem,
Cristo é que é Deus,
na unidade Trinitária,
é Ele a glorificação do Homem AGORA
e em gérmen por explodir de Vida,
aos olhos de todos,
Belo e Viçoso!

O resto é o que há de retardatário e impaciente neste pó mundano.
O resto é só o uso da baioneta da estupidez,
gastas as munições do medo.

Joaquim Santos

sexta-feira, novembro 24, 2006

DIXIT DOMINUS DOMINO MEO
















Não há fúria que sempre dure
nem meandros de dor
pelo que todo o teu ser
vê e é mentira.

Ah, como é longo para nós este processo de submissão dos inimigos
até que se tornem escabelo dos Seus pés!
(«Dixit Dominus Domino meo,
Sede a dextris meis,
donec ponam inimicos tuos
scabelum pedum tuorum.»)
Ah, como é delicioso Handel ter feito a música que fez para isto em 1707!

Nem sempre espumarás de raiva
pelas pulhices de que se faz a vida
ou com que se dá a morte.

Haverá, sem dúvida, outras horas,
onde o teu amor,
onde a tua música,
onde os teus livros,
as tuas amizades,
a doçura da tua voz na conversa amena
o calor da tua benevolência antiga e incondicional,
o teu bom humor,
de Orfeu apaziguador, de Orfeu sedutor,
excedam tudo.

Joaquim Santos

quarta-feira, novembro 22, 2006

PAPEL-HIGIÉNICO OU A METAMORFOSE














O que eles querem é que sejas o papel-higiénico
que limpa o cu à Sociedade:
os casais separados,
os casais litigados,
os pais presos,
os pais desempregados,
as madrastas putas,
os enteados que odeiam as putas das madrastas,
os putos pelo meio,
limpa o cu, se és professor, à Sociedade,
aqui, no sítio do costume, onde se entretece a riqueza da relação pedagógica
por excelência, no espaço por excelência da relação pedagógica.

Exigem-te disciplina? Tu mostras o papel-higiénico
da complexidade de tudo e a fome de permissividade toma conta de ti.

O que eles querem é que te fodas,
que trabalhes, que atures do pior
transversal, vertical e obliquamente,
que ganhes cada vez menos com isso e a todos os níveis,
porque és um problema orçamental,
um número que pesa no balanço das contas.

Querem que te abastardes, que te desumanizes,
que dobres o pescoço, que aceites o jugo,
que faças a transumância do território por um pasto magro onde calhe,
concurso a concurso,
que fiques pobre, paralizado, separado de filhos e de esposa,
que te humilhes, que sejas nulo.

Calmamente, os hábeis secretários de estado do ministério sorriem
e vomitam demagogia para as TV's. São técnicos na proporção da hipocrisia e da cara de pau.
São técnicos, sem terreno, sem campo, sem experiência com a massa humana.
Só sabem ser cabrões com teorias nórdicas para este sul renitente a putices.

Enquanto isso cada vez mais entre ti e o papel-higiénico
nasce uma relação não metafórica, não simbólica:
tu que te fodas, que és um número,
tu que te fodas, que és um problema de finanças.

Tu que te lixes, que já não és gente,
já não contas como pessoa, docente,
agora és número, és papel e o mundo todo olha-te de soslaio,
burocratas da merda,
submissos à merda,
criativos apenas no rumor
e nos respectivos derivados de merda.

Quando a maquiavélica merdanistra
faz de ti papel-higiénico, àspero, de terceira,
Portugal já pode redentoramente limpar o cu
e poderá também vir a limpar as mãos trágicas,
mas à parede.

Os técnicos não reformam nada. Fodem tudo.
São técnicos. São burros que sorriem e têm calma.

Joaquim Santos

quinta-feira, novembro 16, 2006

O HOMEM QUE BERRA MAIS ALTO













Sócrates é uma coisa nova em Portugal.
Guterres, o bonzinho, tinha Cícero a correr-lhe misturado no sangue
e era eloquente e claro a argumentar
e tinha certezas infalíveis de papa, de buda: «PIB?... é-só-fazer-as-contas».

Cavaco nunca teve nada de importante a dizer, a não ser o chavão «estabilidade»,

que em Portugal é igual à estagnação do país, enquanto a classe dirigente engorda diligentemente a respectiva máquina partidária,
e esteve a maior parte do tempo calado, como ainda hoje.
É um homem sério e hirto com alguns genes bushianos
porque as ideias, tal como a língua, também se lhe entaramelam
e saem com queda ou para o ridículo ou para o óbvio.
Por isso, o silêncio, tal como o fato castanho ou preto ou cinza,
fica-lhe bem.

Mas Sócrates não. Sócrates berra mais alto que alguém alguma vez,
a não ser o palhaço do Jorge Coelho, que é democrata,
mas nazi nos berros do púlpito. Dá-lhe um frenesim e é todo um blá-blá estrídulo
que nos galvaniza de tédio e de um entusiasmo aborrecidíssimo.
Por vezes temos de levar com ele porque as TV's gostam do seu número de circo.

Veja-se a mole de gente que ousa achar estar o Estado

a sonegar-lhe direitos sociais e rendimentos do trabalho,
uma multidão que desfila, que tem palavras de ordem e justificados pruridos
contra os tiques autistas e tiranóides de alguns ministros.

Perante isto, o homem, Sócrates, minimiza, desvaloriza,
tolera pouco, mostra-se democrático ao contrário;
primeiro calmo naquelas entrevistas com sorriso estrategicamente dentro;
depois, sobretudo no Parlamento, é que se larga a ser arruaceiro,
aí é que peixeira inteiramente o discurso
porque grita,
porque dá pancada velha nos deputados opositivos,
agride-os, humilha-os, enxovalha-os, opõe-se ferozmente à oposição
num encarniçamento de hiena.
Homem impiedoso, agressivo. Perigoso.
E grita, grita mais alto: se pudesse,
com um megafone na mão, mais alto seria ou não houvesse muito de selva
numa zanga de bichas que se arranham muito e gritando,
gritando sempre, se atiram coisas.

Sócrates é mesmo uma coisa nova em Portugal.
A fama de reformista reforça-lhe os tiques unanimistas e a auto-legitimização metodológica.

Vê-lo é sabê-lo ainda a tomar conta da turma enquanto a professora, que só confia nele,
vai fumar um cigarro; é sabê-lo ainda o melhor aluno da Escola Primária,
bem penteado e de bibe irrepreensível;
o mais bem comportado dentre tanto aluno ranhoso e lento;
o mais impostor dos alunos, implorando, no final dos períodos,
que a sua excelência de facto seja ainda mais milimetricamente incontestável.

Sócrates tem um projecto para Portugal: deportar-nos da portugalidade

para a norte-americanidade; desportuguesiar-nos, ou melhor,
'gasear-nos' de USA.
Sócrates é o timoneiro de um amanhã novo,
quando passarmos a ser em tudo os primeiros norte-americanos europeus
na maior reviravolta social e cultural jamais vista num país, a não ser no Japão:
gente produtiva,
onde agora é mais beber de mais e bater nas mulheres até ao gozo sublime do homicídio,
gente trabalhadora,
onde agora é mais jornais desportivos e investimento podre no sector imobiliário,
gente tecnologicamente inovadora,
onde agora é mais papelinhos, agrafos e clipes para tudo,
gente economicamente agressiva,
onde agora é mais coçarem-se as partes apiolhadamente púbicas,
gente economicamente oportunista,
onde agora é mais distração do essencial com o nome oco, choroso e dramático do Vieira-Mártir da pureza desportiva no Benfica,
gente dinâmica e empreendedora,
onde agora é mais registos do Euromilhões, na Lotaria, e noutras fraudes sociais simpáticas,
gente com um arsenal, um paiol, em casa,
onde agora é sobretudo armas brancas de cozinha,
serrotes e machados ferrugentos na garagem.

Como o povo está errado e o país impossível,
claro que só podemos norte-americanizar-nos
e é para lá que, a ferro e fogo, Sócrates, o MIT, o Silicone Valley, da política com rumo,
nos quer levar
e aonde chegaremos mortos ou vivos!

Joaquim Santos

terça-feira, novembro 14, 2006

POLÍGONO VACA













Ó vacas científicas,
vacas sensíveis, encurraladas nessa liberdade
de pastar um pasto farto e verde!
Vacas, amigas, vamos olhar o Comos! Juntos.
Vacas fraternas, científicas,
de bosta aqui e ali quente, fumegante,
odorosa, fecunda,
honesta e sinceramente odorosa,
como sois justas, de grandes olhos, de caudas giratórias,
anti-mosquedo,
e tendes o automóvel,
e tendes o telescópio,
a paisagem serena,
e estais à chuva,
ao sol,
e podeis espreitar,
e podeis cheirar.

Vinde, fraternizemos!

Ó vacas outras merdanistras,
sardoniscas,
putas, cínicas, sérias, funéreas,
ministras,
vacas responsáveis, educativas,
sub-secretariais, negociais, estatutárias,
vacas de pose hirta e voz metálica,
vacas sentadas, ruminando decisões,
fingindo atender súplicas, indignações,
mas bem a cagar d'alto a bosta poderosa
para quem sofre e se afadiga as concretas situações,
vacas pomposas no mediático das TV’s chocalho,
vacas mentirosas, falsas, comó caralho!

Vacas a gerir metódicas, meticulosas a gerir,
sádicas a gerir como os doutores de Birknau
entre injecções, Monóxido de Carbono e Zyklon B
porque o que tem de ser tem muita força,
embora irracional, criminoso e mula.

Vacas dos sorteios puta,
Vacas das mentiras públicas,
das manipulações contínuas,
das encomendas e controlo rigorosíssimo da sorte e do azar,
vacas da sorte,
vacas da morte,
santas vacas, casa sem misericórdia!

Estais bem para todo o ridículo que uma mente humana conceba

quando vos lembrais de ainda fazer publicidade e mentir, mentir, e mentir!

Vacas que se aputalham naturalmente

com quem tenha,
com quem renda,
com quem cheire,
com quem vista,
com quem muitos cavalos,
vacas de hemorroidal tão intacta quanto a respectiva moral,
sempre em sangues e em dores aqui e ali,
quando tiveram dedo, especiaria ou a surpresa lubrificada,
que por amor não perdoou,
além do aspecto babuínico, convexo,
numa prévia experiência geriátrica debalde humildante.

São vacas que se aputalham,
fezes felizes, rostos que riem, no caminho de uma longa lista de enganados.

Joaquim Santos

terça-feira, novembro 07, 2006

DOR DE URNA


















Uma derrota feliz
à boca das urnas seria hoje ou amanhã
saber-se isto:
que o sniper de Bagdad nunca deveria ter tido como alvos
os pobres patos sentados militares norte-americanos;
saber-se isto:
que o erro tem de ser reconhecido, sim,
mas também corrigido
e que o erro pode ser não invadir já
a Coreia do Norte,
não intervir já no Darfur,
não caucionar já o TPI,
não assinar incondicionalmente já o Protocolo de Quioto.

Uma vitória feliz seria saber-se isto:
uma democracia que inchada vai sangrar as tiranias do mundo
pode é ficar bem quieta que atrairá quanta merda imaginar se possa.

Joaquim Santos

sexta-feira, novembro 03, 2006

BENTO, NÃO VÁS!


















Não vás à Turquia, Bento.
Não vás. Fica por casa. Permanece entre os tomos e os jardins
da tua cidade-estado.

A Turquia é território hostil e lá o laicismo
precisa de cem anos mais para criar a tolerância e o relativismo cultural e religioso
que sobram e são dormência já no Ocidente há muito em Coma aí.

Não vás. Temo por ti e pelo que te façam.
Pensa se não será melhor vindimar oculto numa terra qualquer e ter paz,
vê-te com o lenço ditoso na cabeça entre parreiras e cachos fartos,
carnavalescamente travestido numa velha de espírito endiebrado, por que não?
Pensa se não será melhor veranear noutro hemisfério
entre coqueiros e cabanas de palha.

Mas, pronto, sei que estás sereno e que vais.
Haja a violência que houver por causa de ti,
dos que representas
que é o Nome que a tua boca defende,
toda a violência alheia será sinal de vitória nossa.

O sangue inocente que alguns estão dispostos a verter é tão ridículo e feio e hediondo,
tão derrota para eles mesmos o terror que alguns pretendem desencadear,
tão inútil a chantagem em que uns poucos se apostam sobre o mundo,
que me parece dever eu ter calma e confiar sereno todo o tempo,
como sempre fiz.

Portanto, boa viagem, Bento.
Ficarei aqui a torcer por ti.


Joaquim Santos

quarta-feira, novembro 01, 2006

MONÓLOGO DA IRMÃ DÚVIDA














«Não aborteis, que diabo!
Por que abortais, imorais? - penso eu cá comigo,
de essas mulheres ricas e putas, de essas mulheres putas e pobres,
pois o meu pensamento ecoa-me como uma vergastada
de indignação santíssima e imaculadíssima,
torre de marfim, diadema,
de abjecção ao pecado dos homens!
Cuspo, cuspo na cidade dos homens e nas suas corrupções lúbricas
que conduzem direitinhas à perdição danada do fogo do inferno.

Tanta irresponsabilidade, porra,
e em sexo anal contraceptivo ninguém pensa!
Fodem todos como coelhos,
até formam associações,
mas afinal não se lembram da camisa-de-vénus.
Pensam todos no parque de diversões da foda,
e depois vê-se,
não pensam é no diafragma e no espermicida.
Isto é um deixar o carrinho mesmo à portinha do cemitério,
mesmo à porta do empreguinho,
mesmo à porta da lojinha,
mesmo à porta do depois vê-se.
Andar, usar as pernas, é para os outros.
Abortar brada aos Céus e este povo é um povo preguiçoso,

com o corpo mole.

Então o verde? Quero atravessar logo esta merda!

E agora atravessa-se outra vez à nossa frente
isto de votar no Referendo Abortivo!
Mas então não foi o outro Referendo já um aborto?!
Foram todos para a praia e ficou tudo igual,
menos o custo do exercício da cidadania, que foi caro e inútil,
continuou a penalizar-se, e, de vez em quando, a penalizar-se mediaticamente
com as mulheres do PC e do BE a fazerem solidários
broches aos longos micofones negros das TV's

e a empunhar cartazes libertários:
"No meu cu mando eu".

Se é para penalizar, é para penalizar.
Se não é para penalizar, não é para penalizar.
Que achais, Senhor? É crime, bem sabemos.
O Cardeal diz que é um problema de cada consciência,
mas se se fala em consciência é porque é mal abortalhar.
Será? Deve ser. Só se pode até às dez semanas, mais ou menos,
para se ser rigoroso e científico no torcer do gasganete.

Tem de vir agora um paneleiro de um governo fascizóide,
tecnologicamente obcecado,
intolerante com os legitimamente indignados no protesto, na greve,
um governo mentiroso nas desculpas e brutal nas taxas,
nos impostos,
nas coimas,
no caralho,
um governo insolente com os fracos,
sempre primo-ministerialmente sorridente e com papos sob os olhos,
assim como um parlamento vassalo, acrítico,
o parlamento da anomia,
blaterar o agora é que é Referendo!

Um governo reformista, mas elefantino e porcelanês.
Um governo da política selvática com os pequenos.
Um governo da política safari com os professores

da socióloga funérea e triste.

Os caminhos do mundo,
ai os caminhos do mundo,
Senhor!

Bem, é melhor atravessar.
E Deus que me perdoe.»



Joaquim Santos

segunda-feira, outubro 30, 2006

POST DO MAU TEMPO















Lá vinha ela,
toda esticada no seu couro
de alto a baixo
lustroso preto.
Ei-la recta como uma régua
em pose triunfal,
militarística de égua,
púbica, pública, solene,
submetendo, na agulha do seu calcanhar armado,
todo o Aquiles furioso, todo o macho destemperado.

Lá vinha,
trazia a mesma loureza matante,
cara loureza de artificialina vulgar ao vulgo chocante,
o mesmo olhar fulminante,
o mesmo oco enfatuado
de enganar o Céu e o mundo.

Agarrada ao varão do autocarro,
vinha sem dança e sem strip
e preparava a saída
tal como eu:
voltou-me a cara,
voltei-lhe a cara,
e, antes que a porta se abrisse,
a porta se abriu
e divergimos num asco sinceramente concorde.

Ó azar de mau tempo!
Ó paisagem amerdalhada de zero e pó a ouro reluzente,
abusaste, praga de gafanhotos na minha alma, enquanto pudeste!
Vai, vai lá agora de seara em seara levar a saga de essa devastação,
de esse desnorte, de esse vazio,
servido como caviar entre taças de champagne!


Joaquim Santos

segunda-feira, outubro 23, 2006

PEDEM-ME NAPOLEÃO QUE OS FENDA













Súbditos de si mesmos,
do caos completo, do bafio e da perda,
da carne crua por que, já podre, se rasgam,
súbditos do completo sem rumo,
de pescoço servil e chapéu amarrotado na mão,
de joelho fincado no solo,
de pesarosa boca fatal fendida,
ao passar a carruagem da própria mediocridade,
pedem-me que os invada e vare,
pedem-me que os resolva.

Pedem-me que os devore de esta monarquia absoluta,
cabeça própria bruta: «Por que não nos violas e vens, Napoleão,
submeter-nos pela força à liberdade, à dignidade de cidadãos,
longe do veneno tirânico de nós mesmos?!»

Instam, imploram, lamuriam.

«Não sou Napoleão para que vá» - respondo cristalinamente.
E acrescento: «Vede-me bem. Não vos enganeis.
Tragar-vos-vos-ia sem piedade.
Mas escolho ignorar o que, zelotes, me pedis
num criptar poético de este meu pasmo à vossa estupidez violenta.
Napoleonai vós mesmos, se souberdes como.
Invadi, incendiai, pilhai, estuprai,
coroando-vos bolor vós mesmos imperadores.

Eu passo.

Fico aqui a fazer de Cristo.
Nada de lideranças.
Nada de condução de exércitos.
Nada de carros de combate,
de bigas, de quadrigas,
de amigos ou de amigas,
e nem pensar em discursos longos,
nem pensar em barbas proféticas,
ou olhos que fuzilam,
nem pensar em povos eleitos
de desassossego em desassossego.
Ide lá fazer de Barrabás.

Eu fico aqui a fazer de Cristo.»


Joaquim Santos

domingo, outubro 22, 2006

ONDE DIABO ESTÁ O MATT?


A dança é ridícula, ingénua, pura, de criança feliz.
As razões para dançar são todas!
Até eu dançaria, se pudesse ter estado ou viesse a estar
onde o Matt esteve!

sábado, outubro 21, 2006

CRISE DE FIM DE SEMANA













Cansaço é cansaço.
Desocupação é desocupação.
Desgaste é desgaste.
Disponibilidade escrava é disponibilidade escrava.
Entre uma e outra e outra e outra coisas
vogou, como casca de noz em mar alto,
a nossa vida quase todo um ano.

Ó crista da vaga furiosa e imprevisível em que ela andou!

Tu sabes bem que, por vezes tóxica, a hora morre
e mata de equívocos o que o rosto fala, o que o rosto cala.
Tu sabes que nada se compara ao teu sorriso nosso,
à leveza com que todos os dias nos acolhemos.

Sabes, mas esqueces.

Uma semana dura, mal termina, para ti e para mim,
pode ser como a água do banho que atiramos juntamente com o bebé da alegria
nos fechados rostos, nas palavras guardadas, cansadas,
crueldades de silêncio cinza por sobre a cinza de tão fugazes dias.
Uma semana dura, mal termina, foi como uma batalha feroz
e poder agora pousar as armas ensanguentadas
não será ainda descanso.

Será...

Crise de disponibilidade.
Crise de frescura.
Crise de paciência.
Crise de fim de semana.

Toda a gente faz o que pode para se aguentar nas canetas durante.
O pior é depois...


Joaquim Santos

sexta-feira, outubro 20, 2006

AHMADINEJAD, A AMEAÇA QUE SORRI













A civilização persa não tem futuro, com aquela merda de mulheres de negro e punições físicas por tudo e por nada, com aquele negrume nas vestes da mulher,
com aquela clericalização completa da sociedade,
com aquela ilusão de agradar a Deus pela imposição férrea de uma moral,
de um pensamento religioso único,
como outrora, no Leste, o partido único era represa da liberdade completa do indivíduo,
onde precisamente por isso ninguém se poderá sentir pessoa,
e os EUA, por muito militaristas e brutais que tendam a ser,
têm, back home, uma sociedade verdadeiramente livre,
para o mal e para o bem.
Ninguém requer cidadania iraniana com gula e desejo extremo
porque o Irão não é paraíso nenhum de democracia ou de liberdade, pelo contrário,
há uma mole de gente incontável que deseja ardentemente a cidadania norte-americana,
portanto, ali a liberdade e as possibilidades da liberdade decorrentes
seguem irresistíveis.
É o primeiro, o Irão, que tem a desvantagem da ameaça.
O mundo está mesmo sob a sua ameaça.
Israel é uma nação entre as nações,
deve ser reconhecida, mas o Irão desafia a nossa paciência
porque é da sua cultura desprezar a morte,
quando não é da nossa cultura desprezá-la.
A nossa cultura remeteu o Paraíso para aqui e agora,
portanto, tem muito a perder perante a familiariedade-com-a morte iraniana.
O recontro poderá ser inevitável.
O mundo adormeceu.
A bomba iraniana e a iraniana instabilidade poderá acordá-lo.
Ou nem sequer poderá.

Joaquim Santos