segunda-feira, dezembro 31, 2007

CENAS DO ÚLTIMO DIA



Depois dos depois completos em família e o tão grande prazer nisso,
um pouco esquecido do Desemprego no Ensino,
após três meses numa escola do Interior Norte, embora ainda no Distrito do Porto,
e mantendo o part-time Nocturno, que era extra e agora não o é mais,
regresso à Vida tal como ela me esbofeteia.
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Tenho o espírito dividido, guilhotinado entre duas coisas:
sobreviver e criar.
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Vou ter sinceras saudades das caritas trigueiras, saudáveis, dos meus alunos.
Sei que eles vão ter saudades de mim também: um professor que os fazia rir,
um professor que lhes dava afecto e estímulos fortes para se transcenderem e conhecerem,
uma sala repleta de alunos, com todas as condições para a inevitabilidade
de espreitar o colega do lado, durante os testes, durante os exercícios,
com a magnífica consequência de as notas se inflacionarem como balões de Ministra Estúpida,
um professor que lhes deu o benefício da dúvida e a contemplação condescendente
de esses subterfúgios, porque prefere essa paixão competitiva
à apatia dos alunos portuenses, abúlicos, doentes de lés a lés naquelas alminhas decadentes
e precocemente fumadoras e alcoolizadas em comas frequentes.
O ambiente em Portugal torna-se irrespirável
para quem quer Verdade e Justiça, Trabalho e Dignidade:
enquanto os Governantes se tranformam em Putas Caras para os MegaPoderes Globais,
praticam os fechamentos compulsivos de os Serviços Mínimos
que permitem a Velhinhos e a Crianças continuar Portugal no Interior:
o que se fecha Público há-de abrir Privado e, claro, mais caro.
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E eu, senhores? Qvo ibo?
Sinto-me cansado e humilhado de tanta transumância docente!
Escrever consola-me e realiza-me, mas não me paga.
Para mim, preciso pouco. Mas os meus precisam de tudo.
Minha mãe precisa de tratamento médico de qualidade
porque a sua diabetes não está nada fácil.
Minha filha precisa de tudo.
A minha esposa...
Cá em casa há grandes necessidades que me guilhotinam de angústia.
E agora? Como perspectivar as coisas?
çlkj
Out law é para onde me sinto empurrado.
Ser um Jesse James desta vida e não ter lei senão a minha
uma vez que os Senhores-de-Portugal têm as deles para eles e por eles,
e não dão ponto sem nó, assegurando uma Teta infinita para uma massa clientelar
que obrigatoriamente pune de zero e desespero quem nela não se inscreve, como eu,
graças a Deus. O conceito de Árbitro atribuído a um Presidente neste momento
não passa de uma caricatura de ingenuidade e nulo.
Estamos todos tramados.
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Enfim, de 2007 é o Último Dia e não tenho grandes motivos
para dizer ou sentir ou desejar as tretas do costume
em face do panorama que, passadas as delícias natalinas,
se me fulgura e parece espancar!

PS GLOBAL OU NA CRISTA DO PODER ECONÓMICO


A Sociedade dorme; o PS come!
Eis como se explica o Xeque-Mate-PS à Independência de espírito e de tudo em Portugal!
Quem não é do Partidinho e for contestatariozinho, pode não conservar o empreguinho!
Quem é do Partidinho, sentadinho, caladinho, poderá mamar imensinho!

domingo, dezembro 30, 2007

COLETE-DE-FORÇAS ULTRA-INFORMÁTICO


Ainda bem que o anonimato se vai extinguindo em matéria de Internet!
Que coisa claustrofobizante é que o anonimato se vá extinguindo em matéria de Internet!
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Temos de pensar mais vezes no efeito perverso da sofisticação informática
no que ao desmedido controlo e contabilização-de-actos-nossos ela representa,
muito para além da questão da 'Segurança' e do 'Interesse de Estado'.
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Quando faço Pagamento de Serviços e introduzo o meu NIF,
quando sigo pelos Centros Comerciais e me sinto monitorizado pelas infinitas câmeras,
quando faço compras e as pago pelo Multibanco,
mas também quando singelamente preencho e registo um Boletim do EuroMilhões,
tudo é sujeito a controlo, em tudo deixámos uma impressão identificadora.
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No caso do EuroMilhões, e porque não sou estúpido,
trato o quadro 1-50 como um Território e, por isso mesmo,
escolho os números numa perspectiva mais Espacial, mais Táctica e nada à toa:
em última análise, os números são lugares conceptuais
e é assim que eu os trato sempre.
Ora, o efeito de uma abordagem como a minha, posso prová-lo!,
é a devastadora demonstração do controlo total e absoluto
que poderosíssimas máquinas exercem mesmo sobre o Antigo Aleatório Puro,
hoje, embora muitos o não creiam ou não queiram crer,
Completa e Convenientemente Extinto nas Sociedades Informatizadas.
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Entre o Jogo e o Trabalho, devemos escolher o Trabalho, sem hesitar.
Mas entre a Manipulação e a Transparência, devemos escolher a Transparência,
mesmo que os únicos a exigi-la presentemente sejam 'dementes', 'loucos',
pessoas com 'pouca credibilidade' e 'nulo peso mediático',
ou não fosse hoje possível fazer de um Acabado Pulha um Acabado-Querido-Líder
de que toda a Europa, no fundo, se ri, El-País-ironiza, EU-Magazine-sarcasmiza,
mas que nós temos de engolir naturalmente,
como uma Água Inquinada só maravilhosa
porque bem promovida no plano mediático.
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Sei que nada escapa ao escrutínio de essas SuperMáquinas
e se não fora o facto de todos vivermos alienados
e submissos a que tudo-é-como-é-porque-tem-de-ser-assim,
numa entrega confiante à solidez das instituições, à sua Pureza de Princípios,
ao seu Zelo pela Verdade, pela Imparcialidade e pela Equidistância;
se não fora o facto de os que dominam e chefiam essas Instituições
terem a justa noção de como se Domam e Cloroformizam as Massas-Aflitas,
e há muito que nos teríamos instituído como escrutinadores intolerantes
do Excesso de Escutínio de que somos alvo.
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E talvez não falte muito para isso.

sábado, dezembro 29, 2007

SER OUTRO, NUM PAÍS QUE NÃO SE TOCA


Muitas e muitas vezes, as coisas (em) que pensamos e em que acreditamos
não podem ser escritas por nós. Outros, proféticos e compactos, as dizem.
Antecipam-se-nos nessa Rara Ousadia, em Portugal,
com que se exprime a dura verdade da falência espiritual de um Povo,
precisamente Agora. Hoje.
Mas até as pedras gritariam, se os blogocidadãos se vissem amordaçados
e constrangidos ao silêncio da submissão.
É nessa perspectiva que me sinto irmão-de-espírito
do meu querido amigo João,
comungando inteiramente o que a seguir dele se transcreve:
(Os relevos são da minha iniciativa.)
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«Aqui, aqui e aqui, o Francisco José Viegas deu-se ao trabalho
- muito bem feito, aliás -
de "balancear" o ano que termina.
Não faria nem diria seguramente melhor ou muito diferente.
Permito-me, no entanto, acrescentar dois temas que marcaram o ano nacional.
O aborto, em cuja campanha contra o "porque sim ou porque me apetece"
participei, e a independência de espírito, ou melhor, a falta dela.
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O absolutismo democrático do PS calou a sua esquerda
e enrouqueceu o dr. Louçã com a aprovação da lei do aborto
para melhor poder assentar esse seu absolutismo ensimesmado
na vassoural figura do chefe. Foi um passo em frente no "progresso"
- reparem como o ano encerra com um país mais rico,
próspero e confiante justamente em homenagem ao retórico "progresso"
e prenhe de excelentes perspectivas de renovação populacional -
e um passo atrás noutras coisas que agora não interessam nada.
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Aliás, a cumplicidade da hierarquia cortesã da igreja neste "progresso"
ficou bem ilustrada na eloquência do seu silêncio.
Depois, a falta de independência de espírito que marcou,
e marca como uma doença incurável e terminal,
toda a sociedade portuguesa.
Senti isso de perto quando vi amigos de anos
e de intimidades feitas afastarem-se,
rendidos e vendidos à insolência dos tempos e curvados aos altares da correcção.
Sente-se isso todos os dias no nepotismo primitivo
com que se embala a pretensa democracia caseira,
onde pequenos ogres prosperam como varejeiras sobre a merda.
Sente-se isso na fala dos "comentadores" do regime,
falsos "independentes" sempre de bem com quem e com o que está.
Sente-se isso na gente que ocupa lugares e na gente que distribui os lugares.
A falta da independência de espírito corrói e infantiliza.
Jamais chegaremos a uma democracia madura com gente vergada,
mansa ou amansada pela tirania do correcto.
Também pouco importa que cheguemos a lado algum.
Tempo de chacais e não de leopardos,
tempo de Sedaras e não de príncipes de Salina,
este é um momento impróprio para os verdadeiros aristocratas de espírito
que aqui saúdo.
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Pertencer a outra coisa que não a isto,
mesmo continuando a falar disto, é a vantagem deles.
É ficar - ou sair, como preferirem - por cima.
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in Portugal dos Pequeninos

DANIELLE KNUDSON


Presentemente no Canadá, em trabalho!

AMOR, COLO, ÁRVORE, LUZINHAS, MEU BEBÉ

Minha filhinha docinha,
meu tesouro de balbucios, de quase palavras e palavras firmes 'Pai', Mãe',
a tua melena semi-ocultando sempre
uns olhinhos grandes e tão expressivos,
cantorita afinada e precoce no cantar tanto e já tão bem!
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Ó meu Amor Bebé,
parece mentira ver-te nesta excitação de Festa ao meu colo,
face com face, neste ano magoado de 2007!
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Olha a nossa Árvore, olha as nossas luzinhas,
que nada te furte a magia verdadeira de mais um Natal,
apesar de tudo e para além de tudo.
Como é Tão-do-Céu esse teu Coraçãozinho
só de Beleza e Alegria gizadas Além!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

BHUTTO OU DAS COISAS QUE MORREM E DAS QUE NÃO MORREM


«Porque era mulher e era livre; porque era civilizada e cosmopolita;
porque pertencia àquele grupo social que pela educação e horizontes alargados
não se submete ao reducionismo de uma religiosidade desesperada
que se nutre do analfabetismo e do obscurantismo;
porque acreditava na inevitabilidade da adesão do Islão à contemporaneidade;
porque advogava tudo o que os inimigos da liberdade abominam;
porque fazia frente à sharia, à lapidação, à justiça de sangue e à guerra santa,
foi morta.
Morta pelos barbas-de-açafrão,
danada nas mesquitas e nas madrassas,
Benazir não serve de desculpa aos amigos dos nossos inimigos.
Não era serva nem factotum de Bush,
não era ditadora nem violara os sacrossantos pergaminhos da democracia,
não se lhe conheciam amizades sionistas nem jamais abdicou do véu.
Eles odeiam tudo o que não entendem,
pelo que hoje, mais que uma derrota da Liberdade,
a morte de Benazir Bhutto é um claro demarcador entre a civilização e a barbárie.
A escolha nunca foi tão clara.
Ou se está por "eles" ou se está pela comunidade de valores que,
no Ocidente como no Islão laico,
defende a retirada do confessionalismo
para o mais estrito domínio das escolhas individuais.
Como aqui por mais de uma vez se disse,
o estrertor de um certo Islão nutre-se da violência do desespero.
O tempo demonstrará que, no limite,
os maiores inimigos do Islão foram esses loucos de Deus
que não compreenderam que o tempo de uma certa ideia de religiosidade impositiva, purificadora e totalitária desapareceu.»
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in Combustões.
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[Palavras das mais certeiras e ajustadas, as do Miguel, como é costume.
Quanto a mim, é muito natural que, neste crime anunciado,
o real-factotum de Bush e os barbas-crespas tenham convergido numa sinistra conveniência.
Há crimes que só ocorrem com uma ampla convergência de ódios e de temores.
Mas a coragem e a causa democráticas, ainda que sacrificadas pela desumanidade,
geram e reproduzem sempre mais Coragem e mais ganas por Democracia.
O movimento pela desopressão integral das pessoas alastra irresistível e em graus diversos.
E nada mais repugnante que os violentos e exclusivistas,
que os agentes de uma Violência e Exclusividade que sonega ao Outro
o direito à mais legítima expressão e vivência plenas da sua Pluralidade.
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Resta saber até que ponto quaisquer opções religiosas se inscrevem
no estrito domínio da individualidade
ou se não são antes e sempre um cadinho socializante de interacção/intrusão ideológica
que pode preparar terreno a mais ou menos agudeza no desenvolvimento ético individual.
Se tal desenvolvimento ético não pode ser relegado para o difuso plano individual,
porque é um processo educativo integral fundamentado
em que o cerne dele são as comunidades basistas, família e grupos,
onde estes valores se praticam e ensaiam,
é porque algo mais é requerível
para que vigorem os princípios da Tolerância e da Fraternidade fundamentais.
O mal é que um Darwin feroz tende a reger de competitividade devoradora tudo e todos
e se há um lado negro e agreste da Globalização, ele começa a manifestar-se de mais nesse lado.]

ANABELA


Evidentemente, Anabela hesitava. Era-lhe penoso admitir.
Estava tensa. O indivíduo-colega que se lhe postava defronte
ameaçava-a com aquele piquete de intervenção feito só de olhares sem degelo, inquiridores.
Mãe de um filho pequeno, professora eléctrica, ainda jovem, e ansiosa Directora de Turma,
não estava preparada ali para qualquer confronto: «Eu tenho todos os documentos!»
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Era tarde de mais. Presidia ao Conselho e temia.
Tinha as palmas húmidas. A língua asperizava,
lembrando pequenos cactos de feiras com florinhas espetadas
ou a textura da de um gato medindo os nossos dedos escorrendo odores de comer.
Era bela. Na estatura extramediana,
na harmonia do rosto oval, nos cabelos que lho enquadravam negrejando em grego.
As ancas firmes, calipígea fêmea. E as pernas sólidas, jónicas.
E os seios num prumo de artilharia.
O carácter era frágil. Por isso temia e hesitava.
Segundo pensara, ninguém ali lhe perdoaria uma falha menor.
Mas falhou. Falhou num pormenor e falhou também no que pensara:
apenas um, aquele colega-indivíduo sisudo e obstinado, lhe fechava as vias de fuga.
Os demais ser-lhe-iam propícios e defendê-la-iam, condescendentes.
Anabela não tinha os documentos todos.
Os papéis ausentes envergonhavam-na de lapso.
Linguajou desculpas. Ruborizou. Gaguejou. Liquefez-se em nadas.
Nessa noite, o olhar ausente e um misto de culpa agressiva
fê-la desejar ter espancado o colega impertinente de miudezas intransigente.
Mas era o filho pequeno entre braços que agora ninava com o olhar perdido.
Depois seria o companheiro entre-pernas que por certo consolaria num apressado consolo.
Anabela tardou a adormecer. Não adormeceu.
A Escola magoava-a de torcionário.
Era um sítio penoso de tensão.
E demandava-a dolorosa
dia após dia após dia.
Após dia!

quinta-feira, dezembro 27, 2007

FAZ DE CONTA QUE HAVIA ELEIÇÕES


Pedro, Pedro, cada vez mais me convenço
que essa história da eleição de o blogue do dia,
do mês e do ano é tudo uma questão de lambe-botismo
entre iguais cada vez mais iguais.
O Blasfémias é bom, mas é tão bom como muitos outros.
E justificá-lo é tão sustentável como justificar outras coisas irrelevantes,
solitárias e esquecidas.
çlk
Depois, quando escreves: «Há blogues e blogues.
Há aqueles que nos suscitam alguma curiosidade e logo nos desiludem
- pela verborreia, pela irrelevância,
pela falta de coerência interna,
por serem intermitentes ou simplesmente mal escritos.
E há aqueles a que voltamos sempre, como um vício bom.
Pelos motivos contrários aos anteriores:
prendem-nos pelas ideias, pelo estilo, pela escrita,
pela graça, pela irrreverência (com três rrr?)»,
o que de facto sinto é que nem te passa pela cabeça
quanto cada qual tem a qualidade e o seu contrário
na maior parte do tempo.
E essa revelação é o mérito da blogosfera:
sermos afinal nossos próprios heterónimos e do que queremos.
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Agora, para mim o blogue do ano foi mesmo o Crosta-Fritas
e o blogger do ano foste tu
por teres sido tão ciclópico e abrangente a crismar óptimos blogues,
óptimos textos-postas,
óptima gente nova a quem,
com a tua mão indicativa, fomos ter obedientes.
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Foi graças a ti que descobri o Pau Para Toda a Obra.
Foi graças a ti que visitei durantes mais de um mês o nada notório ou conteudístico,
mas engraçado, Um Português em Bruxelas e tantas,
tantas outras novidades.
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Gosto do que escreves,
mas deixa-me que te sussurre o perigo diáfano
de nos tornarmos Padrinhos tutelares em tantas coisas efémeras
ou tutelares Felicianos de Castilho perante certezas tão certas como incertas.
Medita nisto. Eu sinto que tenho um blogue-pessoa que te pode irritar.
Isso agrada-me.
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Bom Ano de 2008, Pedro, e coração alerta para as verdades incertas.
Gostei de te ler, mas essa posta-júri não é propriamente o caso!

ACERCA DAS MULHERES E DOS HOMENS


Apenas uma resposta icónica

quarta-feira, dezembro 26, 2007

A ESCADA DE JACOB OU UMA FORMA DE PLUTOPOPULISMO


Gostei de ler A Escada de Jacob, por Baptista-Bastos, no Sorumbático:
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«E assistiu-se à desintegração da coesão social, em nome de uma Europa,
cujos propagandistas proclamavam o contrário.
Um pouco por todo o lado, a democracia é seriamente abalada.
Em Portugal, já apenas se manifestam resquícios dela.
O que se sobreleva são o medo, a precariedade no trabalho, o desemprego,
e a imposição de que o nexo entre o social e o político pertence a dois blocos de interesses:
ao PS e ao PSD. Desvalorizada a ideia de bem comum,
exacerbou-se os interesses particulares
e inculcou-se sorrateiramente o pensamento de que nada há a fazer.»
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[Sim, afinal serve-se populismo a rodos na proporção com que se trai o bem comum:
em Menezes e em Sócrates é a mesmíssima moeda corrente,
o mesmíssimo tom, a mesmíssima cumplicidade cada qual com os seus vampiros apaniguados.
Mas cinde-se em duas coisas completamente distintas e em dois discursos diversos.
Um, o discurso branqueador da realidade por quaisquer dos dois líderes à menor oportunidade.
Outro, a promiscuidade cobiçosa e impudica do clientelismo PS e PSD. Ó lastro clientelar!
Esta é a a Grande Escada que nos trai.
Uma escada não de Anjos, mas de Oportunistas. Os do costume!
Agora é somente a voz de Baptista Bastos, o cronista da Casa dos Beijos,
a somar-se à percepção geral do que trai e desqualifica e atrasa Portugal.]

ORAÇÃO-PÃO PARA O CAMINHO 2008


Busco-vos de todo o coração, Meu Deus.
Talvez os que me lêem patologizem o que escrevo,
mas o que escrevo é porque Vos busco.
Não limpo de escória o que escrevo,
não encho já de Serenidade
e Posse de Vós o que escrevo, meu Deus.
Não ainda a contenção educada.
Não ainda o pudor e a ética higiénica no que escreva.
Não ainda a assepsia cuidadosa e delicada no que escreva.
Não ainda.
Por enquanto, também a loucura,
por enquanto, também o impulso,
por enquanto, também o imprevisto.
Quem me lê só à superfície, que não perceba já o âmago de mim,
quem fica na minha letra e não penetre no Espírito do que escrevo,
que não perceba já o âmago de mim.
Só no fim, juntadas todas as peças,
vista a paisagem inteira de mim, Tu lá estarás,
escondido entre nas minhas contradições e rebelias.
Presente no cerne-Cedro dos meus acessos e fúrias.
Porque eu hoje sou um rio em enchente, bruto, táureo, caudaloso,
rumo a Ti-Foz, revoltoso em espumas, em bruás
e levo lamas
e levo troncos
e levo lixos de insatisfação por mim mesmo (sou remoinhos! sou vórtices!)
e pelos meus irmãos à míngua.
Todavia, não estou perdido: firmei meus pés em Ti há muito tempo.
Tu, antes, Tu, durante, Tu, depois,
ó Cristo nascido da Virgem,
Senhor do Cosmos,
da História Alfa e Ómega!
Supremo Demiurgo-Logos-Verbo Criador!
Supremo Taumaturgo de todo o meu ser!
És Tu somente o meu Alfa e o meu Ómega,
Sentido Último de tudo em mim.

ESTADO DE NATAL E DESEJO DE CLAUSURA


Diante de Deus, da Família e do Mundo,
saiba-se que o meu coração está além disto,
de todas estas rotinas e coisas forçosas de Época.
Saiba-se que eu bem sei só no silêncio e na busca da essencialidade interior
ser possível superar a futilidade e exterioridade civilizacional vigentes
e só então eu ser Feliz, e só então eu ser capaz do pleno dom-de-si,
ápice da Partilha.
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Às pessoas concretas, eu amo-as. Amo os meus.
Amo os humildes e despretensiosos.
Amo a gente simples e não-violenta.
A minha empatia com gente boa, sofredora, amargurada, é automática.
Sei perfeitamente que, na minha Esperança em Cristo, lhes sou balsâmico
só pelo olhar e só pelo calor humano, pela escuta integral e atenta.
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Não é a primeira nem a última vez que,
ao ver reportagens televisivas sobre os Conventos de Clausura,
me sinto convicto de como será realizador e feliz terminar assim os meus dias,
caso chegue, como desejo, a bem velho:
Sumerso no silêncio e na oração, minha vocação.
Cheio de Canto Orante, minha vocação.
Cheio de Amor, de Espírito Santo, irradiando-O, minha natureza.
Vigilante como as Virgens Prudentes do Evangelho, minha sensatez visceral.
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Na posta anterior repeti muitas vezes a palavra ódio, aquilo que 'odeio'.
Mas em literaturês, certas palavras são só, e isto não é nada desprezível!,
retórica provovadora, um destrutivo descabelar-se para nada autofágico,
uma aparente autocaracterização indirecta, espinho de perturbação em quem leia.
Quem lê, adora perceber defeitos e vícios e fragilidades nos outros.
Poderá perorar depois os seus sermões de boa-consciência num pensamento orgânico,
organizado, santo, imaculadamente pertinente, enquanto lamente muito quem é assim e assado.
Mas eu, nesse particular, saí Álvaro de Campos, fora o Desespero.
Sou um Álvaro de Campos com Futuro e com Loucura
e sem a Falência-Colapso-de-Si em Desespero do Álvaro de Campos.
Também sem a por muitos lida homorientação sexual do Álvaro de Campos.
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Nem tudo o que se lê é biográfico e muito menos autobiográfico.
Quem escreve, controla o que diz, ainda que sob um registo de aparente descontrolo.
Se parece que não se resguarda, pode estar efectivamente a resguardar-se.
É, decisivamente, provocacional, desinstalador, desassossegante ou pretende ser.
Se há violência, futilidade, competitividade agreste em todos os planos,
que se exponham, ridicularizem e denunciem, nem que pela hipérbole e na primeira pessoa.
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Ou não compreenderemos por que motivo vivemos tantas vezes nos antípodas
daquilo em que pensamos acreditar.

terça-feira, dezembro 25, 2007

CAPUZES E CASTIGOS


Odeio capuzes,
odeio luzes,
odeio o amor e o aconchego que só se têm no Natal.
Odeio as prendas, odeio as pressas,
odeio as mortes rodoviárias que, por ser Natal, são tão expressas.
Odeio o Eixo das Abcissas e o Eixo do Mal,
Odeio o Arrastão, a Origem das Espécies e o Da Literatura, na sua indiscutibilidade consensual.
Odeio a pazada de morte do IVA e a pedra tumular ao pensamento particular à solta.
Odeio as cismas, os grupinhos herméticos,
odeio ter de odiar,
o odioso Nuno Markl é odiável na sua pose besoura, banal, nihil!
«Lamento, mas hoje terás fome e sede,
hoje não houve novamente totalistas,
o megassistema informático diz que em Portugal um El Gordo
é o caralhinho, nem pensem, ide sonhando, camaradas!, que não há!»
«Lamento, mas o seu currículo demonstra que as suas qualificações
excedem o que demandamos. É licenciado, não é?!»
Sorrateiro, socrateiro, ele diz que a produtividade baixa e os baixos salários
são preço da baixa formação e instrução dos Portugueses.
Odeio a mercearia de Interesses do Bloco Central de Interesses,
e odeio que Menezes seja merceeiro, refém de esses velhos vícios de Estado,
refém do QREN, refém merceeiro da lógica merceeira na PutrePolíticaFacta Nacional.
Odeio a fecal aristocracia fatal e a excelência fatal que monologa fecal
longe dos de carne e osso,
odeio as estratificações e as barreiras ao amor incondicional e fluido que de nós sai.
Odeio a mentira,
odeio a cegueira confiada, confiante, sossegada do Povo.
Odeio a obscuridade de cada qual e os bolsos esvaziados de Futuro.
Odeio a alienação engelhada dos Fóruns tristes dos Jornais de Notícias e dos outros Jornais.
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Hoje amei o Fernando,
que é humilde, tem três filhos pequeninos que atirei ao ar,
e entre gritinhos divertidos, meigos, me pediam: «Outra vez!!!»
o Fernando, que fez de conta que trabalhou e cumpriu o serviço encomendado.
Amei a sua tatuagem de ex-presidiário.
Amei as lágrimas inconsoláveis da sua mulher por vê-lo talvez despedido, talvez suspenso,
e punido no vencimento.
Amei hoje a inocência feliz dos seus três filhos pequenos.
Amei o desvalimento injusto e o ter ficado comovido
com as coisas simples da gente humilde e simples.
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Quisera alavancá-los a todos às coisas exquisit
e saborosas e densas e culturais, às viagens, à Educação,
aos Museus, ao melhor e mais humanizador Lazer,
aos Bons Filmes, ao Bom Teatro, ao Circo, bens interditos!!!
Quisera ir com eles rasgar esses gigantescos outdoor parolos West Coast of Europe,
que recobrem o Palácio do Bispo em obras e outros lugares férteis em imaginação cara.
Quisera ir com eles e borrar de tinta amarela emulsionada com merda e vómito
essas representações da Mariza e do Ronaldo
e do Mourinho,
que nos vexam de redutor,
de limite,
de cu-de-Judas,
de periférico,
de resignado.
Quisera ir com eles até ao Ministro Amado e expor-lhe o contrário de ser pedantolas,
vaidosíssimo, estar à sua frente sem maneiras, insolente, desprezivo,
peidando e cantanto, fazer de conta que era Sarkozy,
mas com mais insolência, uma insolência de Bobo Risonho como ele,
sem cumprimentos e sem sala.
Troçar redondo das Grandes Encenações Lisboetas com que este Governo se masturba.
Até querem que o País fique mais forte, mais rico, menos deficitário.
Mas não se querem borrar com a nossa dor, com os nossos gritos destoantes,
com as nossas carências, com as nossas insuficiências doridas, sacrificadas:
eles e a infecta ASAE a enrabar totalitária os a quem nem é dado sobreviver;
eles a soterrar de um FISCO retroativo os há muito soterrados de zero, como eu.
A mim, o Governo pôs a patorra pesada no pescoço no ano da Graça de 2007:
lesou-me no trabalho,
lesou-me na tributação,
lesou-me na plenitude da cidadania que vai cerceando.
Tudo fez pelo reforço do Sistema dos Poderosos. Plutogovernou.
A Maioria é torpe.
A Maioria e o seu discurso tresandam.
A Maioria está a cagar para o Povo.
O Povo não conta para a Maioria.
Se governar é enriquecer o mais possível os mais ricos,
se é bipolarizar o País de negrume e miséria, que o resto acontece por si,
então reescreveu-se o governar, então que se foda o governar!
Quem abraça Putin e Chávez e Mugabe e Khadaphi, quem ainda tem sorrisos para esses-isto,
além de bons negócios na amoralidade típica dos bons negócios,
deve odiar de morte a Anna Stepanovna Politkovskaïa que nos habite.
Anna Stepanovna Politkovskaïa, roga por nós!
É o Poder absolutizante a fazer escola, meu Deus,
a fazer escola sem que ninguém queira saber.
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Odeio jogadores inveterados, diletantes, esbanjadores
na impune hierarquia criminal dos Bancos.
Adoraria que esses falsários desonestos e exemplares abusadores dos pequenos
se vissem violentados nos tenros cus socialmente insensíveis
numa impiedosa prisão brasileira louca.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

NESTE URGENTE SILENCIAR


Os meus votos de um Natal Feliz,
sem barbas, sem tretas,
sem capuzes ridículos e ho,ho,ho's importados,
um Natal só com sentimentos resplandecentes,
a noção da nossa mortalidade provisória, luminosa Esperança semeada,
a noção da nossa fragilidade transcendente,
cheia de Fome e Sede de Divindade,
a noção magnífica de como é importante NASCER E TER NASCIDO
e como isso é que é civilizacional
ao contrário do que enuncia a socretinidade vigente,
essa clareira de Merda tão Aplaudida.
(Perdão pelo desabafo em Hora Tão Solene!)
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Enfim, a todos um Natal Ele Mesmo.
lkj
Entre trabalhos e gripes,
na grande luta pela sobrevivência
e por justiça e por anti-carneirismos
e anti-jumências,
este que nunca Vos esquece
(Amigos Sólidos como a Rocha,
na Grande Europa, nas promissoras Américas,
na ainda mais promissora Oceania, na doce África, na Laboriosa Ásia,
Leitores, Conhecidos,
Ex-Alunos, Admiradores, Perseguidores...
Pretendentes inconsoláveis...).
lkj
joshua
PALAVROSSAVRVS REX

domingo, dezembro 23, 2007

MILLENNIUM BCP-PS - ORANGOTANGO-CLAMOROSA TIRANIA SOFT!



O bicho não tem culpa!
Um orangotango é simplesmente adorável.
Mas o assalto ao BCP, agora partidarizado,
conforme se vai lendo um pouco por todo o lado (imprensa e blogues de referência)
representa qualquer coisa de orangotanguesco,
uma macacada disforme de longos braços e preênsis pés,
de tão extraordinária e só possível
enquanto todos se distraem com as suas pesadas compras de um Natal tão alienado.
Vai um BCP no Sapatinho Estratégico do PS?
Isto configura todo um fenómeno de banqueiro-glutonaria inédito em Portugal!
lkj
Há outros sinais iníquos e abjectos da tirania-soft socretina,
da abominável socretinidade-de-imitação por aí abaixo,
corajosamente denunciados aqui.
ljjh
Quando extravasará nas ruas, que não apenas nos blogues,
um claro clamor contra tanto abuso, tanta porcaria decisória?!

PÉNIS FELIZ II


Há de facto grandes desconhecedores da Língua Portuguesa
para quem qualquer acréscimo aquisitivo no plano vocabular e no da sintaxe
representa uma ameaça somente comparável ao H5N1.
A uma de estas minhas postas, que continha a doçura poética
da amargura da minha vida, titulei Pénis Feliz.
Claro que ninguém se perguntou duradouramente e com intensa curiosidade por que motivo.
Em que é que eu estaria a pensar?
Alguém aí, grito daqui como se estivesse numa montanha e a minha voz ecoasse,
tem uma pista?

sábado, dezembro 22, 2007

LA FRANCE DU SARKOZY


Soube bem ver e ouvir este discurso.

CRETINÁRIO, DE CRETINO MESMO


Violinos beethovenianos
soam nos meus experimentados ouvidos.
Há um tempo de desatinos. Definitivamente, há um tempo para andar perdido.
Este, de sedes, de torpezas, tropelias, tempo torpe, pasma o Pedro, do Crosta-Fitas,
um tempo sem oceanários nem peluches, só com sangue e assassínio,
só com Cretinário - o Cretinário soma e segue
se o Homem não mergulha no Divino.
lkj
Uma bela sopa esteve em cima do meu Poema fumegante.
Um duplo café-para-toda-a-noite
está em cima do meu Poema.
O meu Poema é todo!
O meu Poema é tudo!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

TOM PERKINS, EU E O JUÍZO FINAL (O DESTINO DE UM EX-MEGATESTICULOLIONÁRIO)


Um dia, talvez no Juízo Final,
darei a minha meiga mão liberal de mendigo ao Tom Perkins, senhor de este mundo.
Naquela Ampla Mesa de Pedra, onde o farei sentar-se a meu lado,
sob e dentro de Aquela Luz cheia de Sentido-Dentro,
Ali,
rodeados de ex-operários, ex-escravos, ex-oprimidos, ex-explorados, ex-socratados
Ali,
entre milhões de milhões de Vivos, nas suas Carnes estelares, onde corre Sangue,
Corpos Incandescentes, Luminescentes, Radiantes,
onde Corações imortais batem,
onde dermes tacteiam,
onde Pulmões saboreiam um tão novo respirar,
Ali, onde 'cadáver', 'ruptura', 'dor' ou 'pena' terão sido Esmagados,
transformados em pó, nada, zero,
Ali,
no Paraíso, na Pátria sem reservas, sem coutadas, sem estremas,
sussurrar-lhe-ei, com um sorriso rico perolado, de cetins, ouros, ebúrneas substâncias:
«Tom, e o teu supremo iate e demais bens enferrujados, comparados com isto, hem?»
lkj
O megatesticulolionário nada dirá. Estarrecido com a Paisagem Suprema,
emitindo tão ténue luz da sua Carne Imortal,
julgado como o leite é pasteurizado,
varado de Amor Divino até ao Âmago do seu Âmago,
este homem que, durante esta fase mortal e mortífera,
se apaixonou por si, preferindo, portanto, estar morto, convicta e praticantemente morto,
nada saberá dizer. Nada terá a dizer.
lkj
E será precisamente então que,
Ali,
dando-lhe a minha mão invitativa ao Banquete Derradeiro,
eu o contagiarei da minha sobejante luz
para que de todo Tom Perkins não se envergonhe
de tão extrema penúria de Amor-Dom-de-Si acumulado,
diante do Supremo Juíz, O Crucificado, Chagado, Mortificado,
O Alfa e Ómega, Único Senhor de quanto Há e Respira.
çlk
[A Amazon do Tom Perkins não me rende absolutamente nada,
embora há meses vampirando a minha querida página.
A HP do Tom Perkins soma e segue.
O Mega-Iate do Tom Perkins veleja bolinando.
lkj
E ninguém me visita que testemunhe o maravilhoso escritor que sou.
Por isso estou triste e só e abandonado, neste Natal.
Por isso mesmo, escrevo textos em que sou o último a rir e sem vinganças,
nem a frio, nem a quente, nem à chinês.
Basta-me efabular ser o último a rir,
num tempo em que a milhões nos fazem Últimos dos Últimos.
Portugal é último em tantos ítems porque as suas elites putrefactas e secas
praticam o ultimar metodológico do seu Povo duh.
O Governo ultima-nos sorrindo plasticamente.
A Banca ultima-nos à grande e à francesa.
O Empresariado ultima-nos como grandes fodas que se dão acrobáticas e estupfacientadas.
Os Blogues-com-o-Rei-na-Barriga ultimam-nos de desprezo,
não nos mencionam, não nos linkam, não nos relevam.
A todos eles, um Feliz-Que-Se-Fodam e um Próspero Puta-Que-Os-Pariu!]

quinta-feira, dezembro 20, 2007

VAI UM NATAL DE ARRANCAR PINHEIROS?


Hoje foi um dia intenso.
Vou-me conformando com o meu re-desemprego do Ensino.
Era aquela uma substituição por doença e é tudo muito complexo
porque quem está doente pode melhorar e ter de voltar à escola, a qualquer momento,
mesmo que re-adoeça imediatamente a seguir. E eu sabia disso.
Depois as pessoas do meio escolar, se ele é local e massivo,
na verdade não sabem muitas vezes se devam gostar de alguém novo ou diferente.
Muito menos de alguém bizarro e discreto, como eu,
que nesta fase da minha vida não faço por agradar
e não abro mão da minha loucura ou do meu pathos.
lkj
Perante o meu vulto discreto e obscuro, uns diriam «Ai, é um óptimo rapaz.»
Outros, sobretudo os que mais esfregam as mãos de ansiedade
pelo putativo apertar do gasganete às liberdades blogosferianas:
«Aquilo é um baldas, um libertário, um demónio, um incendiário doido!»
Outros não saberiam opinar nem teriam como.
Mas o meio exerce uma clara pressão inclusiva ou eliminatória sobre um estranho.
O meio avalia, acerta posições e conspira, se farejar algo inabarcável e esse algo for gente.
Não é Sócrates mais popular onde a mediocridade medra? Porquê?
Porque as coisas têm de ser simples e abarcáveis.
Se forem complexas e contraditórias de mais, é porque não servem
os propósitos normalizadores a que tudo deve obedecer.
lkj
Seja como for, foi um dia intenso.
No local costumeiro para o café da manhã,
local que frequento há anos, reencontrei um amigo de infância,
que até tinha motivos para se manter impassível, caso aconchegasse o casulo do orgulho,
talvez para nem sequer corresponder ao cumprimento efusivo e automático que lhe lancei,
mal o reconheci. Pedi-lhe desculpas por qualquer coisa de ofensivo
lá bem soterrado no passado.
Aceitou-as.
Reconheci que fui grosseiro e estúpido na altura, ressalvei o desespero
que então me espicaçava de impaciências.
E a nossa conversa fluiu, entrecortada pela pressa,
esta opressão por outras tarefas urgentes.
Reiterei-lhe várias vezes as desculpas.
Sempre fomos monstros da conversação.
Se nos deixassem, seriam talvez horas de narrativas de vida reciprocadas.
Ele as dele. Eu as minhas. Se nos deixarem, talvez na velhice conversemos
como quem sintetizará as brincadeiras no Recreio da Escola,
os triunfos adolescenciais e as artrites de fim de vida, as literais e as metafóricas.
É a época dos Pinheiros e das Luzes.
lkj
A dado passo, abracei-o. O assunto culposo teimava em aflorar-me aos lábios.
Abracei-o mais a ele que ele a mim.
Respeito que ele se contenha e marque uma pose urbana em toda e qualquer situação social,
ao passo que estou cada vez mais me cagando para essa componente.
Foi bom revê-lo. Escutá-lo.
Talvez me visite ao menos aqui, no meu PALAVROSSAVRVS REX,
pois deixei-lhe o endereço.
lkj
O pior foi depois. Saído dali, em família, feitas algumas magras compras no shopping de eleição
e de proximidade, enquanto eu, mulher e filha, já estávamos no estacionamento,
irrompe à minha esquerda um conflito de casal tão brutal e torrencial
na violência, nas palavras duras,
que em sobressalto senti necessidade
de me conservar atento, não se desse o caso de ele a matar.
lkj
Tudo começou quando ouvi ela a dizer-lhe: «Ó meu grande filho da puta...» Olhei.
Ele já estava dentro do carro, do lado do passageiro, acomodava grandes sacos cheios,
acomodavam, cada qual no seu lado, uma infinidade de sacos,
e ela manda-lhe aquela boca vexatória.
«Que é?, que é?, anda aqui, se és mulher, minha grande puta...»
Fala daqui, fala dali, de repente
estava a moça, de longos cabelos, soluçando, a apanhar na boca,
a ser escovada e prensada por punhos e palmas, soluçando, chorando sempre,
palmas e punhos pelo corpo a eito, entre um sacudir de moscas e um pregrar de pregos.
lkj
Ninguém se aproximava do casal, É Natal!, é natural que ainda hoje façam as pazes,
mas muitos eram os pescoços que agora volteavam para ver e avaliar a coisa.
O careca do namorado, mais baixo que ela,
mas bravo e ameaçador como o Demónio da Tasmânia,
mete-se no carro como quem quer arrancar, mas não arranca. Ela de fora, em prantos!
Ele liga o automóvel. Desliga-o.
Ela luta pelo carro, gritando, batendo no muro vítreo, unhando-o.
Ele sai do carro.
Ela foge.
Ele apanha-a e continua o processo de escovagem do corpo dela
com música soluçante de fundo.
lkj
Um segurança motorizado do shopping acerca-se e é logo ameaçado
pelo careca passado namorado que ela apodara de «grande filho da puta».
O segurança acelera dali, como quem foge antes que beba, para pedir reforços.
O jovem careca afasta-se da namorada chorosa. Tacticamente seria melhor desaparecer.
Reentra no shopping e eu, que já me afastara e rolava lento pelo estacionamento,
todo olhos e alertas para aquilo desbragado, compreendi que era Natal.
O jovem careca olha fixamente a traseira do meu carro que se afasta também.
lkj
Ali estava eu, com a minha doce mulher e doce filha,
na harmonia e paz celestes de sempre onde não falta a devida adrenalina meiga,
a fazer umas pobres compritas despretensiosas,
a conversar da vida, cooperantes, amiguinhos,
eu a dizer que aquilo era falta de dinheiro
e ela a achar que era mas é hábito e que o traste só era 'homem' com aquela pobre
e talvez fosse todo negocial com um macho maior que ele. Já se sabe.
Eu, além da tese da falta de dinheiro, também considerei,
dentro do grande espírito do Natal, tal como ele está e o põem,
que um companheiro violento é sempre um tipo de homem em conflito
com a sua masculinidade: como o seu consciente e subconsciente a negam,
o que é uma auto-agressão, ele arranja maneira de a afirmar, agredindo o fácil.
Assim.
lkj
Talvez ainda hoje durmam juntos.
Ele trará um ramo de flores.
Chorará de paixão e desespero por que lhe perdoe.
Ela aconchegará uma lágrima comiserativa junto ao olho inchado e aureolado de carmim,
passará as costas da mão pelo lábio cortado.
Mais tarde, o cimento de uma boa foda, melhor que todas as outras,
deixará em aberto mais Natais com prendas e cenas iguais
num estacionamento qualquer.
lkj
As coisas que uma boa foda atenuam!
Enfim, é Natal! Está tudo demente!

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A DE ADEUS, ONZE A!


Bebamos o mais possível à vida,
à alegria, ao encontro inesperado
com o Inesperado que ela nos proporcione,
caso o escutemos e a sintonia se faça, como deveria ser sempre!
[Coisa que se aprende!]
lkj
Façamos a festa da Vida sempre que possamos.
A Poesia e a Música não serão bastantes para que dentro nos fermente
a semente do Futuro, um olhar Mais Encantado,
a Liberdade Interior e o Conhecimento Curioso, sôfrego procurado,
com os quais nos não deixaremos apascentar,
na inocuidade em que nos querem,
sem uma boa luta ferina.
lkj
Abaixo todas as tiranias, mesmo as melhor intencionadas.
Abaixo as crueldades processuais, mesmo as melhor fundamentadas.
Viva a Integração, o Afecto, a Compaixão - viva a Competitividade nisso
que o demais (o chamado Sucesso!) há-de chegar
mesmo que não seja o que outros pensam
e querem para nós!
lkj
O Sucesso é sempre Outra Coisa
que só isso, só isto ou só aquilo!
lkj
Adeus,
até Sempre, Maltinha do 11A!

UM SORRISO ADESIVO E PASS-PARTOUT


Pois agora, Pedro, verás o 'líder' a falar ainda mais e mais e mais.
Ele perorará, flanará para que venham espetar-lhe com microfones,
e sorrirá, e falará e falará ainda mais.
Será uma procissão de ainda mais sorrisos e frases cheias de autoconfiança.
Como o homem da feira, com o microfone ao pescoço,
a vender Torradeiras e mantilhas, ele enrouquecerá de tanto comunicar e sorrir.
lkj
Aquele antigo OTA-asco a jornalistas,
aquela anterior repelência DiplomAmparo a jornalistas,
aquela pretérita cara de fodido se contrariado em qualquer coisa em qualquer lado,
aqueles velhos telemóveis vitimados com fúria e raiva,
todo o desconforto dos tempos passados
por perguntas incómodas,
por por gente incómoda,
por gente impecilho, [a patética Edite Estrela, seguindo atrás dele, em Estrasburgo,
após o lúbrico encómio à Presidência Portuguesa, no Respectivo Parlamento,
era a imagem acabada da língua de lustre colada ampla aos Prada dele];
todo o desconforto
por jornalistas com matéria delicada na ponta da língua impopular,
por quem lhe borrava o cenário,
por quem lhe atalhava a estatística,
por quem não aufere-Povo nem aspira-Povo nem obtém-Povo,
tudo o que para socretinamente ele é reles e não conta e aguenta,
já não será.
lkj
Tudo nele agora será ter uma resposta, uma álacre resposta, um sorriso enquadrador.
Será como os dez minutos que consagrou hoje em Sta. Apolónia à SIC-Notícias,
antes de embarcar para o Terreiro do Passo, radiante.
Será assim todos os dias, a partir de agora.
Quanto à realidade para ele, e mesmo para o PR,
é mais uma cena, um teatro de compassividade ocos, ajustados à Quadra.
A realidade é diáfana e insignificante para Sócrates em face do sorriso de Sócrates.
lkj
Não sei de onde é que lhe vem aquele sorriso de plástico
milhares de vezes reproduto cínico,
esboçado a propósito de tudo e de nada.
Um sorriso que havia no Pato Donald e ainda há.
Um sorriso presente no Daffy Duck e no Patinhas, compresente no Rato Mickey.
Um sorriso que vimos certamente no BugsBunny e no Elton John.
Um sorriso também vivo e revisitável nos Irmãos Metralha.
E que não é, nem pode ser, de gente.
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Definitivamente, isto não é de gente.

ALEXANDRE SANTOS ILUSTRADOR - BLOGUE EM DESTAQUE


Alexandre Santos, um artista
que valerá a pena manter sob atenta observação.