terça-feira, dezembro 02, 2014

UM PARTIDO PETRIFICADO E OBSOLETO

O XX Congresso Nacional do PS não o foi. Ao Fantasma terrível do Detrito 44 somou-se o Fantasma do Vazio e o Fantasma de quantas vozes foram postas em silêncio. Muita roupa ficou por lavar. A lama continua e continua a boa consciência falaciosa deste partido destroçado de egoísmo, cegueira e todas as metástases de egolatria semeadas no passado. 

Notoriamente, apesar de perpassado por alguma juventude emocionalóide e seus arrancos taurinos e entradas de leão, o PS não tem qualquer pensamento, não tem capacidade de auto-revisitação e de autocrítica, não tem qualquer espécie de autoridade. Passou uma péssima imagem de petrificação mental e amotinamento retórico, à maneira dos "Congressos" em Cuba e na Coreia, os quais, antes de acontecerem, já se sabe quem invectivarão, já se sabe a que conclusões chegarão e que ódios oficiais serão renovados, num imobilismo atroz que chega a ser mesmo doloroso. 

Definitivamente, este Partido não está pronto para o Século XXI. A travessia do deserto promete ser brutal para estes Militantes Fóssis, caso tenhamos Povo com memória, sentido de exigência e espírito crítico, com a intuição de que qualquer caminho sólido de melhoria de condições de vida e bem-estar se fará pelo lado difícil, exigente e duro; um Povo com a noção de que a herança destes socialistas foi um País depauperado e endividado, a braços com mais uma ingerência externa, dívidas contraídas nos anos da Festa Despesista a cobrar nos anos da mais Amarga Austeridade.

sábado, novembro 29, 2014

O AMOR A PORTUGAL CEGA-ME DE LUZ

Não abdiquei, nunca abdicarei, da minha Palavra pessoal aqui, nesta minha casa. Acontece que desde há largos meses, acho que há mais de um ano já, vejo-me limitado na expressão larga do meu pensamento e das minhas emoções, apenas por estritas razões técnicas que hei-de ultrapassar. O meu computador pessoal, duramente experimentado ao longo de oito anos de luta pela frescura, renovação e liberdade do Portugal que adoro, não resistiu e não mais me assiste.

Mas parece-me óbvio que a sua "morte" por hyperaquecimento dos circuitos valeu a pena, bem como toda a minha paixão e entrega até hoje e que não mudará de hoje em diante. Há esperança. Há sinais de que a Justiça e a Transparência abrem caminho, crivando as pesadas elites da Banca, dos Media e da Política do joio maligno que as perverte e nos oprime e subjuga desde há mais de quarenta anos. Dado que com um mero telemóvel posso comentar e postar pequenos apontamentos, tenho privilegiado o Forum por excelência de todo o debate, denúncia e partilha nacional dos factos da nossa vida pública, o Facebook. É lá que me podem encontrar mais assíduo.

A todos os meus amigos, declaro desde já que está tudo bem comigo. Estou sereno e vivi serenamente quanto sucedeu nos últimos dias. Parco em festejos e pronunciamentos. Prometo um regresso à intensidade e habitualidade das minhas postagens, mal me veja apetrechado de um novo PC também ele disposto ou capaz de percorrer o meu caminho, de suportar o meu tempo. O tempo e o caminho das minhas lutas de sempre, sob os meus dedos, sob o meu uso. É que o amor a Portugal cega-me de luz. Não posso parar. Não saberia.

sexta-feira, novembro 14, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME XII

[As Aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, o grande Crash impante e ufano do Rato e de Portugal, não tem dormido bem. As insónias sucedem-se. Tem pesadelos terríveis. Por isso convocou Isabel Loira Moreira para lhe vir ler uns poemas e assim ajudá-lo a adormecer. A deputada do desbragamento, da fúria sexual e das rupturas de Extrema-Esquerda acorre ao seu mestre num pronto. 23 horas em ponto, ei-la que assoma à porta da Bramcamp e fala pelo intercomunicador: 

— Sou eu, SóCrash. Trouxe os meus livros, anotados. 
— Olá, querida deputada que eu coloquei no grupo parlamentar do nosso PS para infernizar a tola ao Seguro, sobe, sobe... 
— É para já, Santa Puta. Uma vez adentrada naquele templo de conforto e luxo, Isabel Loira Moreira não esconde o seu espanto, as fragrâncias, a decoração... 

— Pá, SóCrash, enquanto filha de Adriano Moreira, um conservador que ajudou a fundar o CDS e que foi ministro de Salazar, comungando algumas ideias corporativistas do Estado Novo e apoiando activamente a política, devo dizer que isto é fantástico. 
— Ainda bem que gostas, Isabel Loira Moreira... 
— 'Pera aí, Santa Puta... Pronto, já foi... 
— O quê, pá? 
— Um orgasmo. Estar aqui, olhar para a tua qólidade de vida... 
— Eh pá, Isabel, ainda bem que não seguiste as pisadas ideológicas do pai. Nunca terias tido um na vida. Ahahahaahahah 
— Eheheheeh, Santa Puta. Queres então que te leia, declame, vá!, os meus poemas para que adormeças... 

— Sim, como vês, já estou de pijama. Completamente pronto... 

terça-feira, novembro 11, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME XI

[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o grande candidato a todas as candidaturas impossíveis do favor popular, o grande monte de verborreia de mentir, o carisma negativo da mitomania e da charla política na História de Portugal, teve uma ideia presidencial. Algo genialmente inovador germinou-lhe na mona. Se o Rato não o quer por perto nem o quer como candidato presidencial para 2016, imaginou que poderia avançar alguém que, não sendo ele, fosse quase como se fosse ele. Carlos César. «Que tal, calhordas do Corporações?!» — esganiçara o Santa Puta em plenas catacumbas ultrassocialistas, o bunker do Rato. Os Calhordas estacaram e ensaiaram uma resposta. Foi assim que se iniciou um esplendoroso debate sem ataques pessoais entre o Santa Alcoveta e os Calhordas do Corporações e que haveria de ficar nos anais da debatologia nacional.

— Calhordas, é o que vos digo. Caso Guterres não queira concorrer nas presidenciais de 2016, o melhor candidato, excluindo eu mesmo, passa a ser Carlos César.
— Mas, ó Santa Puta, nada sabemos da disposição de Guterres. O que sabemos é da disposição favorável a Guterres do teu Gajo, o Costa.
— O meu Gajo, o Costa, anda entretido a afastar-se de mim, a criar taxas para turistas na Capital, a fazer uma recolha de economistas e a ter trocas de palavras com o Maduro. Ouvi-o dizer que apoiava António Guterres como candidato à Presidência. Empalideci de raiva.

— Sim, Santa Puta. Nós também espumamos de raiva por amor de ti.
— Calhordas, Guterres é um fraco. Demitiu-se em plena fulguração da minha rapina, quando os meus negócios e as comissões com o Euro 2004, mesmo o Fripór estavam a bombar, estupendamente encaminhados e sob o grande biombo santificador da Governação.
— ... Que ele destapou, abrindo caminho à Direita Decadente.

segunda-feira, novembro 10, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME X



[As aventuras do Santa Alcoveta]. ‪

‎SóCrash‬, o Santa Puta, entusiasmado com o mais recente acto de censura e intolerância no Facebook por parte do seu protegido jovem turco e promissor Daniel Oliveiresco sobre o chato do PALAVROSSAVRVS, joshua, um dos seus mais acirrados detractores, acerta um encontro com ele na Torre de Belém para um café secreto e umas natas clandestinas. 

Dani é o primeiro a chegar. Trouxe uma pequena garrafa thermos. Surge disfarçado, com uma longa cabeleira loira e óculos escuros, embuçado numa sweat shirt negra com enorme capuz. Pouco depois, aparece SóCrash, luvas de couro, óculos escuros e uma T-shirt encarnada com o Che estampado, vestida por cima de uma camisa de manga comprida negra. Trazia as natas num saco de papel castanho.

— Viva, Dani! Deixa-me antes de mais cumprimentar-te pelo teu acto de higiene de ontem, na tua página do Facebook de que sou fã — atirou logo o Santa Puta. 
— Como vais, Santa Puta? Ah sim. O tipo é um chato de Direita que acha ter piada. Não debate. Não argumenta. Passa o tempo a fazer piadas xungas, a meter-se comigo, sem respeito nenhum pelas nossas ideias, sempre com cenas contra a Esquerda e a nossa quádrupla entente. Vê lá, SóCrash, que se atreveu a escrever no seu mural que eu ainda serei um novo Jorge Coelho e o Tavares, o Rui, do LIVRE, um novo Pina Moura. Cortei-lhe o pio e a mais uma gaja inteligente que fazia coro com ele. Até porque esse caralho já estava a granjear enorme popularidade no meu próprio público que o enchia de gostos. 

— Fizeste bem. O gajo não passa de um professorzeco frustrado e com uma cisma messiânica, basta ver como apresenta a fronha do Cristo há anos, no bloque e em tudo aquilo em que está metido. Está desempregado do Ensino desde Outubro de 2012, quando o Crato inchou as turmas com a aritmética da austeridade e o pretexto do excesso de oferta docente. Os nossos serviços de informação garantem-me que esse filho da mãe fica indefinidamente a seco, para aprender.

quinta-feira, novembro 06, 2014

SOB O VÉU DA CARNE

Mantenho as minhas corridas vespertinas quotidianas, quando a luz esmaece laranja-rósea e a minha voz se espraia na base natural da ficção pelo olhar. Corro. Corro pelas horas. À minha direita, o mar esverdeja e brama com os seus minúsculos sorrisos de espuma e tudo decorre como se as minhas pernas cruzassem palavras invisíveis para um universo metafísico, hiperatento à rica e compenetrada sucessão do meu compasso íntimo, pulsar cadenciado. Sobre mim, o céu azuleja. Coronário, o suor arfante do meu corpo é o mercúrio azul da vida que vai fixando a ressurreição corpórea deste meu íntimo ente misterioso por se revelar e que só um crente futuro poderá ler na transparência porque poderá ver a união seminal que foi sempre o motor da minha Fé sem oscilação no perpétuo risco aceite sob o véu da carne. Ver, o crente futuro verá nítida essa brecha irredutível repleta de vida, biliões de outros entes, vê-la-á, pela volúvel seara cósmica ancorada no Cronos e no tecido negro-amoroso da volição divina, no verbo performativo anelante que ostento. Corro. Eis o tempo e o argumento do poema. O crente conhecerá a borboleta do jardim sem reparar se acaso é borboleta: ela destina-se a recordar a vida imortal de um adorador do Altíssimo, que a todos arrancará, ungidos e odorosos, da provisória dormência mortal das suas tumbas.

quarta-feira, novembro 05, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME IX

[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, o alcoveta optimista-comissionista de todas as oportunidades de comissionar a 2%, o dente afilado na carne do contribuinte do passado, do presente e do futuro, o magno charlatão aperaltado do Regime, sente-se insatisfeito e perdido, sem projecto senão ficar na sombra, na sala vazia da RTP, colado ao seu Gajo, o Costa, para abrir caminho a uma candidatura presidencial ou não abrir. Ele sabe que o ok para tal projecto que não há meio de chegar pode não chegar, até porque o Padrinho Don Marioleone já percebeu o lastro impopular que SóCrash representa para o Gajo do Rato, o Costa. Os seus, que o deveriam apoiar, apoiam cada vez mais a sua partida forçada para fora do País, de novo Paris, os Estados Unidos para afiar o seu Inglês Macarrónico, um exílio redentor qualquer bem longe do País. Entendem que a sua cercania do Gajo Costa embaraça e embacia esse sol do socialismo mãos-largas que vai triunfalmente a votos em 2015.

Por isso SóCrash resolve desabafar com o seu modelar filho espiritual, Manuel Pinho, sondando-o, também a ele, sobre o presente e sobre o futuro. O encontro é nas Catacumbas do Corporações, onde se colige todo o saber-marreta acerca de qualquer adversário que se possa mais tarde sujar e intimidar, desde que se oponha ao grande projecto comissionista ultra-socialista que há-de levar Portugal a uma Bancarrota de cada vez:

Pinho é o primeiro a chegar. Acende um cigarro numa nota de vinte euros e contempla a hora combinada no relógio de vinte mil euros, belos tempos áureos, esses do DDT BES Salgalhado. Entretanto, SóCrash chega, embrulhado numa gabardina negra e oculto sob uns óculos escuros. Como de costume, o Santa Puta dispara o cumprimento habitual:

— Olé, Pinho, pá! Manel, dá cá esses cornos, pá, olé!
— Ehehehe Olá, Santa Puta! Que saudades, pá, dos nossos tempos de glória.
— E de grande rapina, pá, Pinho.
— E de grande rapina, Santa Puta! Pois é... Foi por uma nesga que o TGV não se fez...
— Nem o Novo Aeroporto. Pá, Pinho, a malta do nosso Rato, os meus mais íntimos escravos, quer que eu me pnha no caralho... Nem acredito.
— Santa Puta, meu amigo, é a política...
— Pois, mas eu ainda tenho muito para dar ao Rato e sobretudo preciso da grande imunidade de dez anos que só uma Presidência da República me daria... Nada me daria mais prazer que suceder ao traste de Bouliqueime.
— Isso é impossível, Santa Puta. O pessoal que analisa números já concluiu há muito tempo que ardeste... Nem para candidato serves.

segunda-feira, novembro 03, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME VIII

[As aventuras do Santa Alcoveta]. 

Costa foi arrebanhar o micropartido Livre para o frentismo de Esquerda; Cavaco presidiu ao 05 de Outubro com a tónica na reforma do sistema político-partidário; ninguém quis saber o que pensava o Santa Puta de Cavaco, novamente por ele-SóCrash insultado na RTP, pois o respectivo share há muito anda a roçar o pó da indiferença. Enfim, o tédio era de mais e a SóCrash apetecia-lhe algo. Resolveu por isso mesmo procurar o Padre Melícias para se confessar numa conversa reparadora. 

Entrou na Igreja como numa inauguração ou num anúncio da PescaNova, 2005-2011, impante, inchado, teso como um pepino, percorreu o corredor central do templo vazio. Os tacões dos luxuosíssimos sapatos ecoavam secos e, na penumbra, as imagens dos santos como que plasmavam esgares de repulsa e o transporte facial do terror. Finalmente, acedendo à sacristia, encontra o Padre Melícias a contar uma peripécia de caça ao seu irmão sacristão: 

— ... Apontei a caçadeira e zás, com dois tiros, encomendei a almas daquelas duas perdizes ao meu bom São Francisco. Depois almoçámo-las na casa do meu amigo... Ó meu caríssimo amigo Santa Puta, SóCrash! Bons olhos o vejam. O que o traz por aqui? 
— Meu amigo e filho da mãe Melícias, você não envelhece, pá. Não... Vim com o intuito de conversar consigo. Confessar-me, vá. Mas exijo que o Sr. Padre Melícias se me confesse também. Seria um verdadeiro serviço público ouvi-lo a narrar essas gloriosas caçadas e poder falar-lhe do mundo submerso dos grandes escritórios da advocacia de negócios de Lisboa, que são oito, os principais. 

— Meu filho, não tenho muito tempo e há ali duas ou três almas para a missa das 11h. Vá, mas pronto. Vou ouvi-lo com toda a atenção. 

SóCrash pôs-se à vontade. Tirou o casaco. Deitou-se no banco corrido da sacristia e começou a falar, como se estivesse no consultório de psicologia:

sexta-feira, outubro 31, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME VII



[As Aventuras do Santa Alcoveta]

Vara, incumbido de agendar um encontro privilegiado entre SóCrash, o Santa Alcoveta, e o Diabo, lá ganhou ânimo e tratou disso. Foi, naturalmente, mediante um telefonema e um telemóvel descartável. 
— Tô, tô? É o Diabo? 
— Sim, pá, sou eu em pessoa e tal, a substância, o parasita no ser da espécie humana, sou a besta que habita em ti e em quem quiser e fizer por isso. 
— Ah, então é você. Este número está certo. Desculpe lá o incómodo, mas o meu amigo do peito SóCrash... 
— Sim? Trata-me por tu. Somos íntimos. 
— ... pediu-me o favor de lhe propor um encontro... 
— Claro que sim, mas a verdade é que eu estou sempre com ele. 
— Sim, pois, Diabo, claro... Olhe... olha, sei que está... estás, sempre muito ocupado... você... tu vestes bem, perfumas-te melhor, calças-te com primor e requinte... és um excelente orador, o meu amigo Santa Puta admira-te muito... e quer encontrar-se consigo... contigo de um modo... único e especial... 
— Ok. Tratarei disso. Não é preciso que me aguarde neste ou naquele dia, no Gambrinus ou no caralho, Armando, meu camarada. E não lhe digas nada. Far-lhe-ei uma surpresa inesquecível. 

E foi num desses dias em que a maluqueira toma conta da cabeça do Santa Alcoveta e lhe dá para gastar cinco mil euros duma vez em rosas vermelhas, mandadas colocar por todo o apartamento da Bramcamp, e em que depois se deita a aspirar aquela delícia. O Diabo apareceu-lhe, nu, colado ao tecto do quarto, mesmo por cima da cama onde, de braços cruzados atrás da cabeça e pernas cruzados, SóCrash dormitava deleitado. De braços abertos, como um crucificado do prazer, fazendo uma paródia assustadora da famosa cena do filme Beleza Americana, o Diabo acena-lhe e faz-se notar. Abrindo os olhos, SóCrash começa por dar um gritinho, depois percebe quem é, acalma-se, mostra-se familiar e entabula um delicioso diálogo com o seu mentor e mestre: 

— Ahhhh, Não acredito... És tu, Diabo? E o Armando que não me avisa... 

quinta-feira, outubro 30, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME VI

Outro galheteiro de proprietários do Regime e da Democracia
[As Aventuras do Santa Alcoveta]

 SóCrash, o grande condecorado, a alma e a lama do Regime, sentiu um tremor de gozo ao ouvir falar na extraordinária entrevista do seu ex-ministro e ex-penduricalho ameba de Direita Esquerdizante, Freitas do Amerdeiral. Não perdeu tempo e convocou-o para um Porto, na Bramcamp. Pressuroso, a sumptuosa luminária infalível compareceu e, com enorme deferência, foi o próprio Santa Alcoveta a vir ao átrio recebê-lo:

 — Caramba, pá, Freitas do Amerdeiral, dá cá esses ossos, essas banhas essas bochechas impagáveis, pá!
— Meu caro Santa Puta, não imagina a honra em ser por si recebido. Sabe que em Portugal eu pertenço à casta dos especiais...
— Sim, claro, pá, comendador Amerdeiral, tu és um prodígio sumptuoso da palavra e da ideia...
— As TV chamam por mim, Santa Puta... O que eu digo conta!
— Sim, pá... As nossas TV veneram os fósseis do Regime, os inúteis e as canas agitadas pelo vento, professorais sibilinos... E esse, definitivamente, não é o teu caso, pá. Que encantas pela frescura e pelos teus postulados de Esquerda...
 — Claro. Eu sei que sou brilhante... Como o Santa Puta sabe, liderei o CDS, mas basicamente o meu espírito pardo servia de biombo ao génio de Amaro de Costa. Estive com Sá Carneiro, embora muito na sua sombra porque o meu carisma é um carisma...
— ... Murcho... Amerdeiral. Deixa lá. O meu gajo, o Costa, também não tem um quarto do meu carisma, mas nós, no Rato, temos estado a trabalhar nisso.

terça-feira, outubro 28, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME V


[As Aventuas do Santa Alcoveta] 

De óculos escuros e uma gabardine negra, SóCrash, o Santa Puta, encontra-se com o Armando, o Vara, na Pastelaria de Belém para avaliar os progressos no grande Golpe de Estado das Esquerdas em decurso, liderado pelo testa de ferro Costa. Vara cumprimenta-o entre dentes: 

— Então, pá, Zé, Santa Puta? 'Tás bom? E o nosso Costa, como é que a coisa vai? 
— Olá, pá, Armando! Nosso Costa, não. Meu Costa. E o meu Costa vai bem. Fez bem em ir falar de treta de Esquerda para entreter as Esquerdas, lá na taberna irrisória do LIVRE. Eh, pá, aquele Tavares está mortinho por ser ministro. Talvez chegue a chairman da MotaEngil. 
— Cuidado, pá, Santa Puta. O teu gajo continua a nada dizer de substantivo que ultrapasse a mesma lógica do Marinho e Pinto também para que qualquer eventual acordo, seja com quem for, se torne possível, nem que seja com o Diabo. Mas as ideias fazem falta, pá. 
— Ainda bem que falas do Diabo, Vara. Sabes quem foi o gajo que me mandou ter com ele? 
— Com quem? 
— Com o Diabo? 
— Sim, quem é que te mandou ir ter com o Diabo? 
— O filho da mãe do Melícias. Fiquei-lhe com um pó. E no entanto, gostava de um encontro com o gajo. Veste bem e usa bons sapatos e perfumes... 
— Pois, pá. Deste confianças ao padre camarada.... Mas esse nosso gajo Costa... 
— ... Nosso, não, meu Costa... 
— Ou isso, pá, Santa Puta, esse teu Costa não diz nada para além da utilidade que o nada tenha para o processo da tomada de decisões, dá para ver donde vem a sua autoridade política, não é de um carisma de líder visionário como tu, Santa Puta, que ele não tem e nunca terá... 

segunda-feira, outubro 27, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME IV

[As Aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, o grande herói do gamanço nas governações, o mega mago das comissões, ficou inusitadamente inspirado com o grande colóquio mantido e mentido com o Diabo Nu, especialmente depois da festa no Gambrinus, onde os amigos do Diabo vão amiúde. Já mais refeito, e perante a impopularidade difusa que vai recobrindo o seu Gajo, o Costa, agora chamado o Pluvioso Costa, resolve reunir-se com o seu clone e sósia, o Beato Silva Clone Pereira. A reunião é agendada nas catacumbas do Corporações, onde se giza todos os dias formas de compilar informação de foder adversários, entalar marcelos e chantagear oponentes. O Beato Clone é o primeiro a abrir a habitual conversa de merda. 

— SóCrash, meu querido líder e espelho de trejeitos, o Pluvioso Costa está a ser vítima do tempo e a perder popularidade. Os nossos media fazem o que podem, a SIC e a Constança louvam-no, evitam o contraditório, poupam-no à crítica e a qualquer mácula, como o passivo da CML de mais de 1000 milhões... mas as redes sociais vergastam-no todos os dias... Sobretudo quando chove. 
— Eu quero que as redes sociais se fodam. Já estou farto de mandar dizer que é para não recordarem os negócios que mais me envaidecem. Fala-se no BES, falam em mim. Fala-se na PT, falam em mim. Em vez de criticarem e derrubarem este Governo da Direita Decadente, é a minha obra, o meu legado e a minha herança... Desejem-me, porra, mas esqueçam a gasolineira que fali e a Chafarica da Pátria, que fodi. 
— Acalma-te, Santa Puta! Olha que ainda serás o nosso Presidente da República. E tens de pensar que a Direita anda assustada. E assustada com a própria Direita. Por exemplo, olha o Mendo Castro Henriques. 
— O que tem ele, Clone? 

sexta-feira, outubro 24, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME III

[As aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, a regra excepcional do Regime, sente saudades do seu galfarro e discípulo Paulo Campónios. Decide convocá-lo para um jantar numa tasca da Capital. Campónios, feliz por poder ver o mestre, é o primeiro a chegar. Pouco depois, chega o Santa Puta, animado com a promessa de um delicioso repasto, o seu café e o seu cigarro: 

— Olá, meu filho Campónios, como vais, pá? 
— Melhor que nunca, sobretudo depois de o crápula do Seguro nos ameaçar evacuar das listas de deputados para as legislativas de 2015, conseguimos pô-lo a andar primeiro... e tu, Santa Puta?! 
— Estou muito bem, pá... Não... aquilo foi muito bem jogado por nós... Se eu vos perdesse no Parlamento, perderia boa parte da minha força conspirativa no Partido e no País. 

— SóCrash, tu já viste aquela cena do Vítor Bento? 
— Qual merda? O que é que tem o Vítor Bento, pá, Campónios? 
— Antes de sair para a direcção do nosso BES, que degenerou em Novo Banco, o gajo pediu a reforma antecipada do Banco de Portugal. 
— E? 
— O governador Carlos Costa aceitou. 
— E então, Campónios? 
— Só que o gajo nunca chegou a assinar os papéis.

quinta-feira, outubro 23, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME II

[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, sente-se excitado com as reacções sobressaltadas do Partido Socialista de Extrema-Esquerda ao Orçamento de Estado para 2015, o qual mantém o aumento brutal de impostos e, portanto, não é eleitoralista. Vendo que se aproxima o fim do mês de Outubro sem que se confirme a profecia do Padrinho Don Marioleone... a da queda iminente deste Governo de Direita Decadente, resolve fazer-lhe uma visitinha, dirigindo-se, para o efeito, à Fundação Don Marioleone. Quando Don Marioleone detecta SóCrash, estende-lhe a mão polpuda e o Santa Puta segura-a, dobra o joelho e beija-a repenicadamente: 
— Abençoe-me, Padrinho, Don Marioleone, todo o dinheiro e todo o poder ao nosso Rato, hoje e para sempre... 
— Impostor! Os meus informadores garantem-me que me consideras obsoleto, Santa Puta, e não suportas que eu, pelo jornal i, te desvie da vida política. O que dizes em tua defesa?... 
— Ó Padrinho, por quem é?! Eu sou todo seu, um fanático da sua história e dos seus feitos... Tenho toda a legitimidade para ambicionar uma candidatura à Presidência...

quarta-feira, outubro 22, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME I


[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, convoca à Bramcamp o seu protegido Costa para fazer o ponto de situação da situação do silêncio e percurso do Costa enquanto seu Gajo. Ei-los juntos, finalmente, juntos, na grande sala repleta de perfumadas rosas vermelhas. Uma coisa aborrece sobremaneira SóCrash. Não, não é a rejeição do PEC IV. Foi aquilo que o Ministro António Pires de Lima ousou dizer no passado dia 14 à Comissão Parlamentar de Economia. Costa é o primeiro a tomar a palavra:

— Olha, pá, SóCrash, a chuva já passou, as sondagens que nós encomendamos dizem o que queremos... 
 — Gajo, podes continuar calado, mas bem que me poderias defender publicamente do que o pulha do Pires me está a assacar? 
— O quê, Santa Puta? Sabes que há coisas que é melhor eu nem comentar. 
— Gajo Costa, o Pires disse que os problemas actuais da PT foram causados no passado por mim, pá, que tudo começou com os meus Governos e acabou com os meus Governos, pá... 

segunda-feira, outubro 20, 2014

EU SONDO, TU SONDAS

COSTA OU OS DIAS DA TUMEFACÇÃO

Mais algumas semanas e os resultados das sondagens e pequenas medições de popularidade ditarão ainda o estado de graça de Costa, o gajo do SóCrash e de Don Mariolone Soares. Costa não passa de um peixe-balão a gozar os últimos momentos de tumefacção messiânica, popularidade e efeito surpresa. Neste momento e por algum tempo ainda.

Tirando o caso de se tratarem de sondagens a soldo e à medida do freguês, coisa a que os anos SóCrash nos habituaram, se forem fidedignos, estes resultados atestam a enorme vocação e pendor imbecil das massas aleatoriamente chamadas a expender opinião e a fazer corpo nas estatísticas. Só por crassa falta de memória e de massa crítica, o PS poderia alcançar a sua segunda maioria absoluta, neste século. Impensável. Mas a partir daqui será sempre a descer porque a realidade dura e exigente das contas públicas e os constrangimentos da moeda única e da consolidação em Portugal farão o seu caminho, esmagando Costa e o PS com as alternativas que na verdade não têm. O Partido-Máfia tem o seu próprio lastro e os seus muros intransponíveis.

Não será possível ao Peixe-Balão Costa manter o inchaço impante e a popularidade por inerência, perante um Governo quanto mais responsável mais impopular e mais impopular também porque a agenda dos Media Televisivos da Capital segue caminhos que o financiamento por recursos misteriosos em paraísos fiscais poderiam explicar, a ganância dos interesses na sombra poderia explicar, mas não a honestidade intelectual nem a isenção jornalística, basta ver e ouvir as torpezas de Constança Cunha e Sá ou os torpedos parciais de Ana Lourenço para perceber o alinhamento editorial das estações.

O efeito Costa pode ser este, superficialmente popular, e essa popularidade grandemente devedora do seu silêncio, mas poderá revelar-se terrível e penoso quando o Pluvioso Alcaide voltar a falar e porventura converter-se em Governo para fazer nada mais que o que está a ser feito. Recordemos que, na semana passada, a crise política grega levou este País de regresso às complicações de 2010, com os juros a pagar pelos empréstimos pedidos a dispararem para 9%. Costa, os socialistas e a Extrema-Esquerda, querem enfrentar a dívida e o défice não pelo cumprimento de metas duras impostas de fora e negociadas com a relatividade absolutista do credor, mas pelo alívio unilateral dos processos de cumprimento. Só que a via sancionada pela chancelerina Merkel contra a derrapagem dos défices dos diversos países do Euro não poderia ser mais implacável: o alívio virá pelo cumprimento e não pela descompressão e abrandamento da consolidação.

Espera-se, pois, que os ventos de guerra amainem e que o abrandamento económico dê lugar à vitalidade das bolsas europeias. Do que precisamos é de líderes duros de rins, capazes de resistir à facilidade e dispostos a cumprir na íntegra as metas dos défices. O que hoje possa parecer intoleravelmente exigente converter-se-á progressivamente na rocha sólida a basear a nossa riqueza e semelhança com os países de ponta da União.

sexta-feira, setembro 19, 2014

RASGADA

Gaivota de asa rasgada
pena intermitente, desdentada,
voa, pia, à bolina
contra o vento sul,
à bolina, contra o vento sul,
entre o cinza e o azul,
entre o cinza e o azul.

segunda-feira, setembro 08, 2014

RADIOHEAD INTEGRADOS

Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O'Brien, Colin Greenwood e Phil Selway
Foi durante uns dos meus voos intra-brasileiros pela Avianca que, dada a oferta em entretenimento a bordo incluir a vídeo-audição de The King of Limbs, in the Basement, me senti inspirado e instado a recobrir, ouvir e conhecer, toda a discografia dos Radioheah, não apenas no plano musical, mas também no plano poético e no das artes gráficas que acompanharam a produção dos sucessivos álbuns. Para começo de conversa, a submersão na atmosfera musical resulta numa impressão de intensidade, envolvimento e um que de desconforto kafkiano, dada a linha questionadora e provocatória que medula toda a obra, desde Pablo Honey, 1993, passando por The Bends, 1995; OK Computer, 1997; Kid A, 2000; Amnesiac, 2001; Hail to the Thief, 2003; In Rainbows, 2007, e, finalmente, mas espero que nunca por fim, The King of Limbs, 2011. Estão integrados, in toto, na minha sensibilidade.

sexta-feira, setembro 05, 2014

LISTA DE DELÍCIAS NO MEU BRASIL

Na Roça, se silenciares a cidade que há em ti, renascerás rural,
místico, íntimo do Criador, sensível ao Seu
Sopro, dócil ao Seu Cristo.
Aquele enxame farto efémero de libélulas, voando à caça de moscas, numa vertigem rectilínea, obliqua, para trás, para diante, em torno da velha odorosa baraúna lá de casa; aquele beija-flor, mínimo, supersónico, em voo brusco, de arbusto em arbusto, entre pétalas rosa, roxo, encarnado; aquela profusão de pássaros sonoros e multicolores, laranja vivo, preto e branco, encarnado, o pica-pau de penugem à moicano, mas especialmente o pássaro azul, sempre só, sempre a solo, entre os demais, todos bicando os nossos restos de arroz, feijão, cuscuz, nenhum deles medindo demasiado distâncias com humanos; aquele sol tão ardente, mal o dia nasce, e ainda ardente enquanto se põe; aqueles crepúsculos de fogo no fim da tarde ou ao romper do dia perante os quais é preciso rezar; a hora intensa do amor, quando a hora do amor intenso chegou; aquele último suspiro da madrugada, o alfange lunar, dois planetas em conjunção; as minhas costas nuas, meu peito, embrenhado na caatinga por horas sentindo os cheiros umburana, quebra-faca, perscrutando chocalhos, revirando cristais, pontapeando espinhos; sol posto, abelhões zumbindo religiosamente como que em adoração ao Criador, entre os ramos e as flores da grande árvore; aquele silêncio místico à hora rubra do horizonte rubro; aquele céu nocturno absoluto, silente, repleto de estrelas desnudando sem mácula a Via Láctea; aquele meu reclinar na rede defronte a quase tudo isto e repleto disto tudo. Este meu encontro com o Criador, à brisa da tarde, e o Seu Santo, lá, no mais completo abandono filial, sem ânsias, sem medos, sem passado, sem futuro, absorto no Momento, fora do mundo, submerso no Cerne.

terça-feira, setembro 02, 2014

DEAF-INIÇÃO

É um espirro
É um espasmo
É um respaldo pasmo
esponjoso e espraiado.

É um esmifrar esmagante e estuprado.
Sal, quanto do teu mar é um latrocínio crocodiliano-lacrimoso em Portugal?!
O caralho do bom-nome e a puta da honra
que os foda!


quinta-feira, junho 19, 2014

ARROZ CAROLÍNGIO

Não é carolino o arroz
que como
diário,
vital,
repetente,
exército albino no meu prato rápido e fugidio.
É carolíngio.
Sou eu o Carlos que impera sobre o império de arroz
que come
carolino.
Carolíngio.
Carlovíngio.

quinta-feira, junho 12, 2014

CRISTINA SCUCCIA CONTRATADA PELO RATO

Numa tentativa desesperada de reconciliar as hostes, Cristina Scuccia, a freira cantora, foi contratada pelo Rato a fim de entreter os quatro meses antes das primárias, na tentativa de que as diversas facções desavindas se entendam, beijem e abracem como nos bons velhos tempos. 

As eminências pardas do Rato, numa prova de união a toda a prova, esperam que daí resulte um milagre para que toda a Loja Ratense regresse ao braço dado e tal pelas avenidas e aos grandes inchaços de Esquerda. 

SóCrash já garantiu que vai abraçar Seguro com uma lagrimazita no canto do olho crocodilo perparada pelos assessores, meticulosos nestas coisas piroseiras mediáticas e verbo de encher. Soares já indicou o desejo de ter lá um colchão para assistir e dormir a sesta ao mesmo tempo. 

Costa já disse que vai guardar a faca a aplaudir comovido a freira e olhar com ternura para Seguro. Seguro ainda não sabe o que fará, mas garante que não há qualquer pressa.

domingo, junho 08, 2014

NEM COSTA TRAVESTIDO DE GUEIXA



Há uma euforia pubescente em torno de Costa que me parece manifestamente exagerada porque com laivos messiânicos e fascizantes: os líderes predestinados e providenciais são uma fase primitiva e ultrapassada da experiência europeia do Poder em diálogo de sedução e conquista com as Massas. Tal como me parece um perfeito exagero a apreciação negativa e pessimista dos resultados averbados pela Coligação PSD-CDS-PP, nas últimas Europeias. Aí, ninguém ganhou. Ninguém perdeu. Ninguém se afirmou. Ganhou a abstenção massiva, brutal. Por isso mesmo, os resultados da coligação são intransponíveis para um cenário de legislativas, muito mais a doer e muito mais frio. 

A sorte da liderança governamental Passos-Portas não se joga na disputa menor entre a impreparação de Seguro e o voluntarismo retórico de Costa. Joga-se, sim, e toda, na questão do crescimento do PIB, na queda do desemprego e no controlo consolidado do défice. O sucesso nestas frentes, aliás prestes a ser constatado no balanço do segundo trimestre e seguintes, equivale a um regresso do eleitorado arredio em refregas eleitorais menores, um eleitorado amorfo, mal informado, que não vota por sistema ou que vota por puro clubismo acrítico e ritual. E votará para exorcizar o que tenha a temer ou segundo o canto de sereia com que queira sucumbir, como em 2009. 

Sendo o socialismo uma obsolescência ideológica e um vazio absoluto político de soluções credíveis na Europa, mas não só, unicamente um eleitorado doente, decadente e imbecilizado apostaria no escuro, em Seguro ou Costa. A maquilhagem das lideranças já não pode esconder a tragicidade das políticas seguidas até 2011. Não há volta a dar. Nem Seguro nem Costa. Nem Costa travestido de Gueixa.

sexta-feira, junho 06, 2014

O MOSTRENGO CONSTITUCIONAL

Como é que pode haver um País contente pelo facto de, resolvidos problemas sérios de uma ingerência externa óbvia e descarada, provocada pelo PS, Partido-Máfia/Partido-Festa, o Estado ter de se submeter, sequestrado, aos ditames bloqueadores do Tribunal Constitucional?! A Constituição cheira mal. E quem lhe pastoreia aleatoriamente o respeito não se lava desde a década de setenta do século XX. 

O fóssil Constitucional é defendido por fósseis sem noções de micro ou macroeconomia que não compreendem nada de contas nem de futuro sustentável. Pensam a vapor na era digital. Cunhal escreveu, mandou escrever, com os pés esse documento pós-revolucionário, num tempo sem Internet, sem Facebook, quando a informação mal pairava sobre as cabeças dos pobres portugueses, gado dócil a votar em videirinhos e em grandes estômagos regimentais com que se danou o País década após década. 

Hoje, tirando uns condóminos ferrenhos da secção partidária da esquina, a verdade e o realismo das Contas Públicas estão à mão de quem os quiser abarcar com factos e não com as fantasias subjectivistas e estatistas das Esquerdas. Os guardiões da papelada obsoleta de 1976, 32 mil palavras-verbo de encher!, não têm servido senão para nos desassossegar o presente e assassinar o futuro. Em caso de bancarrota e desequilíbrio das contas públicas, coisa que tem sido cíclica e natural, dada a propensão imbecil para preferir e eleger o Partido-Bancarrota, a Constituição não deveria servir nem sequer para acender um fogão a lenha a fim de se preparar o almoço. Deveria ser suspensa até que o Estado se pusesse a salvo de danos e perdas maiores. 

Os Partidos-Lixo, Partidos-Lóbi, Partidos da Rotatividade que nos assam vivos, desempregados e bem fodidos, deveriam rever o quanto antes o Mostrengo Constitucional. Já não há pachorra para tanta porcaria, palavreado, dezenas de páginas e páginas, chumbos-vetos canhestros do pessoal sinecural do Tribunal Constitucional. Já basta.

terça-feira, maio 20, 2014

REINCIDIR A CAMINHO DO DESASTRE

Não posso subscrever os apelos à passividade, branca ou nula, a propósito da próxima oportunidade eleitoral. Agora que a campanha para as eleições europeias se esgota, sem que a União Europeia estivesse no centro, uma vez que a refrega eleitoral não passa de um ajuste de contas e uma luta de galos entre o PSD e o PS, o debate e o combate é pelo melhor resultado possível como aferição de um ensaio pré-legislativas 2015. Por isso, no próximo Domingo só na aparência se escolhem os representantes de Portugal no Parlamento Europeu: o que se plebiscita é o Governo Condicionado 2011-2014 ou o Partido-Máfia da Bancarrota 2005-2011. 

É, porém, a Abstenção que vai ganhar. Nas europeias, entre 1987 e 2009, passou de 27,8% para 63,2% e vai voltar a crescer desta vez. No entanto, toda a gente deveria recordar que a demissão do exercício mínimo do voto abre a porta aos extremismos de Esquerda e de Direita, tal como abre a porta a possibilidades grotescas, a oportunistas e aos oportunismos que permitiram o trajecto despesista e insano 2005-2011. Votar também é, senão escolher, evitar males maiores, repetição de males maiores, reincidência em males maiores.

O pior desastre de um Povo é dar de novo o benefício da dúvida a daninhos, rapaces e sociopatas, cujas obras más gritam todos os dias e perseguir-nos-ão ainda por algum tempo, enquanto não lograrmos um País superavitário, de contas sólidas, capaz de crescimento e poupança. Temos a obrigação de construir, finalmente, um tal País, aberto ao Ocidente e ao Oriente, no Euro. 

terça-feira, maio 13, 2014

OITO ANOS DEPOIS


Acho que perdi algum do fulgor e da energia motivacional para uma escrita diária, criativa, com o fôlego habitual. Celebrei há dias oito anos de Palavrossavrvs Rex sem sequer os celebrar. Perdi algum fulgor, não. Suspendi o meu fulgor aqui para o verter noutro lado. Fiz escolhas novas enquanto me desintoxicava de escolhas e dedicações zelosas de que saí desapontado e traído. Mas o meu projecto continua a fazer inteiro sentido para mim. Há tanto sobre que tentar reflectir, tanto para exprimir, e porventura muito mais recepção, hoje, um número maior de leitores a quem agrade a minha forma de ser e de dizer. Não é, porém, ainda o tempo de um regresso a uma volumosa produção aqui, conforme foi sendo habitual. 

Há impasses que me retraem: tenho uma profunda sensação de desadequação ao meu País, àquilo que me oferece e eu deixei de lhe oferecer, tendo eu investido tanto no Saber, na Cultura e na Língua a fim de ensinar outro tanto, quando enchia a sala de aula da paixão portuguesa que me transpassa. O amor e a alegria não se me eclipsaram. Nem a esperança. Dir-se-ia que perante o absurdo que se abateu sobre o meu País [as escolhas dos políticos, muitas delas malignas: foram capazes de sacrificar a esmagadora maioria antes e durante o Ajustamento em vez de sacrificar os interesses incrustados no Estado e sanar milhentas injustiças e parasitismos], pude encontrar uma réstia de fé numa saída pessoal à medida dos meus sonhos, fé nalguma coisa de bom no sentido da minha sobrevivência e da rentabilização dos talentos que possuo. 

Acredito que algo de bom me sucederá. Talvez mais rápido que o movimento da corda sobre o ramo d'árvore com que Papageno quis terminar consigo mesmo, antes de compreender que tinha uma vida feliz e fecunda à sua frente, não só, mas com a companheira perfeita para si. 

sexta-feira, maio 02, 2014

O DEFUNTO





No ano de 1474, que foi por toda a cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas. Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da Igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro, e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem se conservou devoto e fiel servidor; ainda que sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três ave-marias, a benção e a graça. Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de vésperas, murmurar docemente uma salve-rainha. E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente do altar da Senhora.

segunda-feira, abril 28, 2014

ESPETO DA SITUAÇÃO

Não trabalho oficial e normalmente desde Outubro de 2012. Sempre cumpri escrupulosamente todos os meus deveres fiscais. Os meus rendimentos globais são abaixo do zero da dignidade, como acontece com milhares de pais de família em Portugal, nos últimos três ou mais anos. Não me mexo, não dou um pio, não clandestinizo laboralmente a minha vida. Nunca o fiz. No entanto, pelo menos desde 2005-2006, o Fisco descobriu e inventou para mim os mais estapafúrdios incumprimentos, as dívidas fiscais mais manhosas, e os juros de mora da praxe, incidentes fiscais que fui pagando conforme pude. E não posso. E continuam. Sou até um sincero entusiasta do trabalho global do competentíssimo Paulo Núncio. Pessoalmente, não sei como apode a minha situação pessoal senão de um espiral depressiva. Depois de esbulhado pelas consequências da Bancarrota, macerado pelo desemprego no Ensino, perseguido pelo opressor BES e pelo persecutório Fisco, resta-me o quê?! Há alturas em que se me evapora toda a esperança.

sexta-feira, abril 11, 2014

SOTURNO BAIXO COTURNO

Um discurso deselegante, simplista, repleto de petulância e preconceito e poeticamente oportunista. Politizar a cerimónia de entrega de um prémio não é coragem, é reduzi-la e degradá-la à baixa mercearia de um passe meramente mediático e autopromocional. Este País não é dos que reclamam recursos esgotados a um Estado Falido com um Governo de Emergência cerceado por um Resgate Externo. Este País não é dos que se penduram em Governos Mãos-Largas, mas só para amigos, até que as bancarrotas eclodem. Este País é dos que assumem as suas responsabilidades e triunfam com mérito sem assacar a um Estado Pré-Falido e seus Governos o milagre subsidionista perpétuo, o maná dos dinheiros públicos correndo como leite e mel. É triste que uma desfocada Esquerdite Aguda suba à cabeça da soturna Alexandra Lucas Coelho, retirando-lhe a grandeza de que deveria ser capaz ao receber um prémio.

quinta-feira, abril 10, 2014

NÃO DEMOS OUVIDOS AOS CORVOS

Não é chocante que o Governo entre em campanha eleitoral com resultados robustos para apresentar, o maior dos quais a evacuação formal da Troyka, uma campanha eleitoral sem manipulação dos números, com mais euforia a partir dos nossos parceiros europeus que propriamente do próprio Governo, Primeiro-Ministro e Vice-Primeiro-Ministro. Gravíssimo foi o que aconteceu em 2009: um Governo em Campanha Eleitoral com aumento demagógico dos salários na Função Pública, com baixa demagógica do IVA, com ajustes directos demagógicos à solta e quase toda a opinião publicada, radializada e televisionada posta a ludibriar a Opinião Pública, lobotomizada pelo spin maléfico que Só-Crash montara. Há uma enorme diferença. Depois, quando os Governos deixam de fazer a diferença, fingindo a diferença com dívida e demagogia, incumbe à Sociedade fazê-la, à diferença. Fazer de Portugal um País mais próspero, mais organizado e mais rico não é uma tarefa dos Governos, mas nossa. Completamente nossa. Será assim e será muito bom para todos. Não vale a pena dar ouvidos a corvos.

terça-feira, abril 08, 2014

SOVAS NA TV

Só-Crash, quando liga o turbo, vai tudo de rojo. O próprio Deus perderia um debate com Só-Crash; Cícero, o famoso tribuno, perderia os debates com Só-Crash; o próprio debate, se fosse gente, perder-se-ia a si mesmo perante Só-Crash. A torção da verdade nas mãos de Só-Crash é um convite a que fique sozinho a macerar, moer, matar, a verdade e os factos porque Só-Crash trata os factos e a verdade como a lavadeira pública trata a roupa: enquanto canta, soca, esmurra e pontapeia a roupa suja. Depois, há uma horda de fãs, cuja consciência foi deliberadamente obscurecida pela fome e sede de facção, que vem aplaudir o processo agressivo e insultuoso de distorcer a verdade e os factos. Só-Crash, se debatesse consigo mesmo, derrotar-se-ia e sovar-se-ia argumentativamente. O homem é um fenómeno para-anormal.

sexta-feira, abril 04, 2014

AGOSTINHO DA SILVA

Agostinho da Silva (1906-1994), filósofo, poeta e ensaísta português

TRESLEITURAS

Não foi uma participação, dr. Soares. Foi a promoção de uma tragédia, foi a abertura da Caixa de Pandora do sangue e da crueldade, da guerra civil e da malícia nos territórios do Portugal Ultramarino, foi uma debandada irresponsável; foi o primeiro de muitos outros actos de puro amadorismo político, leviandade ideológica e imbecilidade anti-patriótica. O fardo que o Dr. Soares carrega é muito pesado: uma descolonização parola, uma ou duas bancarrotas corruptas com austeridade a doer; a evidência do enriquecimento pessoal à conta e nas costas do Regime; o exercício de décadas de uma nefasta e nociva influência velada no Regime; e agora recentemente os pronunciamentos descabidos, a sandice terminal, o facciosimo primário, a falta de senso escabrosa, a egolatria desonesta, o vício da politiquice. Sem um coração aberto e generoso, sem um ego esvaziado de si mesmo, sem um olhar puro e justo, sem um amor incapaz de trincheira, com que lastro, com que cara, com que mãos ávidas e coração pesado vai este cidadão apresentar-se a Tribunal perante o Incomensurável Amor Divino?! «Tive fome e falaste de política»; «Tive sede e falaste de política.» ; «Estava doente e falaste de política.»

quinta-feira, abril 03, 2014

JONET

O pior inimigo dos desempregados são as Redes Sociais? O pior inimigo da produtividade são as Redes Sociais. O pior inimigo dos casamentos e dos relacionamentos são as Redes Sociais. As Redes Sociais podem ser o pior inimigo de muitas coisas, o pior inimigo de muitos e muitas. Mas hoje, ano e meio depois de o desemprego ter regressado à minha vida e com cara de querer ficar, descobri, e descobri algo tardiamente, que as Redes Sociais são-me afinal um oásis de socialização, uma plataforma gratificante para novas formas de amizade manifestada, um espaço transformador para a comunhão de causas e para a mais esplendorosa criatividade. Quando não há emprego, quando o emprego e a procura de emprego redundam numa enxurrada de derrotas sucessivas, de muros altos e barreiras impossíveis de transpor, ainda bem que temos nas Redes Sociais o escape perfeito, a válvula animicamente remediadora. Em face do labirinto inextricável do desemprego, da destruição gradual da auto-estima pela situação de desempreto, há um porto de abrigo. Por outras palavras, obrigado, Linkedin. Obrigado, Facebook. Obrigado, Twitter. Obrigado, Google+. Obrigado, Blogger. Quanto a Isabel Jonet, compreendo perfeitamente o que quer dizer, mas parece-me simplista de mais e, nesse ponto, pouco fiel à realidade íntima dos desempregados e algo falho em matéria de capacidade para a compaixão.E a compaixão é, ou deveria ser, o departamento prático de que a Isabel Jonet se ocupa como ninguém. Estou aqui a pensar e nunca compreenderei por que motivo ninguém me contacta nem contrata para nada, uma ideia, um projecto criativo. Não é certamente por viver num País de Mierda, como dizem os espanhóis, nem por causa da minha excessiva entrega às Redes Sociais, com exposição de pontos de vista políticos quotidianos a beliscar sobretudo a fantástica agremiação política que é o Partido Socialista e o seu legado. Não. É um mystério para mim, José Manuel Fernandes. Um Mystério.

quarta-feira, abril 02, 2014

GETSEMANI

Da obra de José Manuel dos Santos Ferreira, Jesus Cristo Luz e Sentido da Solidão do Homem
Toda esta tese do José Manuel dos Santos,
e em particular este capítulo,
tem um significado absolutamente vital
e luminoso para mim,
para o sentido da minha vida
e da minha história pessoais.

Viver unido a Cristo e assim morrer
é todo o programa de Vida Feliz
a que posso aspirar
e bem eu sei de que Plenitude pode ela ser feita.
Nasci e cresci nesse halo de Amor Reverencial
e de Adoração ao Senhor Jesus,
numa espera activa e lúcida de Ele, 
Parusia dentro de mim,
Parusia na Plenitude, Loura Seara, para todos,
bebendo da Água Viva da Sua Palavra,
comendo a Sua Humaníssima Carne
e bebendo o Seu Sacratíssimo Sangue,
vivificado desde o meu cerne por Ele todos os dias.

Não tenho eu, Joaquim Carlos da Rocha Santos,
testemunho e testamento maior
a dar da minha passagem pelo mundo
que o meu Encontro Pessoal, olhos nos olhos,
com o Rei e Senhor do Universo,
Deus Filho, Messias, meu Redentor, Yeshua.

CAPÍTULO SEGUNDO

1. O PARADOXO E A HISTÓRIA


Entremos, pois, com Jesus, na sua Hora, que se cumprirá plenamente, quando o Filho do homem for «entregue às mãos dos pecadores» (Mt 26, 45; Mc 14, 41), pelo que a seu respeito se poderá também dizer: «Esta é a vossa hora e o poder das trevas» (Lc 22, 53). Não obstante, e como o IV Evangelho nos permite entender, será a hora em que Jesus realizará integralmente a missão que o Pai lhe confiou ― «foi precisamente para esta hora que Eu vim» (Jo 12, 27) ― e assim, glorificando o Pai (12, 28), virá a ser Ele mesmo glorificado (12, 23).

Antes, porém, da sua integral consumação no alto da Cruz, esta hora tem já de algum modo o seu início na oração de Jesus no Jardim das Oliveiras ou, mais exactamente, é aí que o seu sentido se manifesta de maneira irrevogável e definitiva por parte do próprio Jesus, como veremos.
Com a consideração da agonia do Getsemani, o nosso itinerário atinge um momento de particular densidade, aquele em que ― deixando de lado por agora a mesma morte ― a solidão de Jesus se nos apresenta mais intensa, mais dramática, quase palpável, pese embora tudo o que há nela de impenetrável e inexprimível.

É aqui que o paradoxo que já anteriormente considerámos, tendo acompanhado toda a vida de Jesus, se revela mais agudo, atingindo de certa forma o seu ponto culminante: na hora derradeira, e apesar de ter expressamente desejado a presença dos seus, Jesus será por eles abandonado, e desde logo a partir do Jardim das Oliveiras. Mas, por outra parte, que poderiam eles fazer, nesse momento em que o Unigénito de Deus iria ser entregue à morte por todos os homens?

As narrativas da oração de Jesus no Getsemani (Mt 26, 36-46; Mc 14, 32-42; Lc 22, 40-46), não obstante a orientação própria de cada evangelista, são todas ela percorridas por esta dialéctica de presença e ausência que tem os apóstolos como protagonistas, e que não pode ser considerada como um mero artifício literário ou apenas como uma composição da comunidade primitiva, mas exige um preciso fundamento histórico.

Em sentido contrário, poderia alguém observar que o núcleo essencial de tudo o que sucedeu no Getsemani consiste na relação de Jesus com o Pai, que os três relatos nos apresentam sob a forma de uma dramática oração. Sendo assim, admitir-se-ia a hipótese de que os primeiros cristãos, conhecendo a íntima relação entre Jesus e o Pai, e sabendo também que Jesus experimentara realmente a agonia na véspera da sua Paixão, sem contudo quebrar os laços que O uniam ao Pai, tenham simplesmente procurado formular os diversos elementos em presença, o que viria a constituir, segundo as diversas tradições, os actuais relatos da agonia (1). Em consequência, seria fácil prescindir da existência de testemunhas directamente envolvidas no acontecimento da agonia, superando deste modo delicados problemas que se lhes encontram conexos e que adiante serão recordados.

Pensamos, porém, que a existência de testemunhas que acompanharam de perto, ainda que de modo francamente imperfeito, a agonia de Jesus, e que é atestada pelos três relatos evangélicos, não pode ser eliminada, e não tanto por se tratar de testemunhas que viriam depois a comunicar o que viram e ouviram, quanto porque, sem elas, a agonia de Jesus ficaria privada de uma dimensão «horizontal» que desempenha, no entanto, uma função insubstituível.

Julgamos que o seu papel de testemunhas, no sentido próprio do termo, não pode ser também menosprezado, porque o carácter único da agonia de Jesus, com tudo o que esta tem de insólito e portanto de verdadeiramente imprevisível, não seria passível de invenção nem sequer de simples «composição» ou projecção do anteriormente sabido; não poderia ser algum modo conhecido o relatado, se não tivesse, de facto, acontecido, e se não tivesse, de facto, sido testemunhado.

Não obstante, mais importante do que tudo isto nos parece ainda o facto de que é a presença desses homens que faz da solidão de Jesus uma solidão total, diversa da solidão que Ele mesmo tantas vezes procurou, nomeadamente para se isolar das multidões ou para se dedicar à oração. Aqui, como veremos adiante mais de perto, Jesus procura a solidão, porque tudo se decide exclusivamente na sua relação com o Pai. Mas procura também a companhia de alguns dos seus discípulos, segundo o dinamismo da partilha que com eles instituíra, e acabara de se consumar na Eucaristia, a qual, porém, ficará agora inteiramente por realizar. Vai para o Jardim das Oliveiras para estar a sós com o Pai, mas experimentará também a solidão do abandono por parte daqueles mesmos que quis levar consigo. Tudo se define no seu diálogo com o Pai, mas os discípulos recusarão participar nessa hora crucial, ainda que, de facto, só «à distância» o pudessem vir a ter feito.

É esta presença dos discípulos na agonia do Jardim das Oliveiras que, por contraste, nos faz ver até ao fundo a inconcebível extensão dessa agonia, a sua abissal profundidade. Por outro lado, porém, se a própria dinâmica interna da solidão assumida por Jesus reclama a presença dos discípulos, é também esta que nos permite o conhecimento da sua efectiva historicidade e do seu conteúdo essencial. Como acima afirmámos, não é primordialmente como testemunhas que os discípulos presentes no Getsemani nos interessam, mas essa sua qualidade é também muito relevante, e merece por isso ser adequadamente valorizada (2).

No entanto, este dado poderia ser posto em dúvida, como frequentemente tem acontecido, em razão, sobretudo, da referência ao sono dos discípulos, mencionado por qualquer dos três relatos evangélicos. Julgamos, porém, que não se justifica uma atitude de cepticismo radical, pois, como observa W. Marchel, «é impossível que todos os discípulos tenham adormecido instantaneamente, automaticamente, ao mesmo tempo e pelas três vezes (cf. Mc; Mt), desde que Jesus se afastou deles para rezar. Aliás, nessa noite, após os grandes acontecimentos das últimas horas, não menos impressionantes que solenes ― a Ceia, a traição de Judas, os discursos de Jesus ― os discípulos estavam todos muito perturbados.

Captando ao menos em parte a gravidade da situação, é de admitir que não tenham sido imediatamente tomados pelo sono, e que tenham permanecido despertos ainda por algum tempo. Eis porque não podem ter deixado de ouvir Jesus, antes de se abandonarem a um semi-sono cheio de inquietação» (3).

Outra objecção muito comum observa que, segundo Lc 22, 41, Jesus se afastou dos discípulos «à distância de cerca de uma pedrada», coisa que parece privá-los de toda a possibilidade de acompanhar o que se tenha passado. Mas também esta dificuldade não se afigura decisiva, porque essa distância é a que separava Jesus do grupo maior dos discípulos (Lc 22, 40), não a que O separava de Pedro, Tiago e João, a quem S. Lucas não se refere, e que (segundo Mt 26, 37; Mc 14, 33) acompanharam mais de perto Jesus, que deles se separou apenas «um pouco» (Mc 14, 15) (4).

Por outra parte, o uso feito por diversos autores desta mesma expressão: «à distância de cerca de uma pedrada» ou de outras semelhantes, parece referir um limite dentro do qual seria ainda possível ver e ouvir (5), coisa que S. Lucas pretenderia também indicar, sugerindo, em consequência, que o acontecimento por ele relatado «teve testemunhas, e foi delas que, directa ou indirectamente, receberia o essencial dos pormenores que nos transmite» (6).

A angustiosa luta de Jesus esteve, pois, de algum modo e por pouco tempo que fosse, ao seu alcance, e apesar disso não puderam ou quiseram vigiar com Jesus. Mais tarde, um ou outro daqueles que Jesus tomou consigo transmitiria à comunidade cristã o testemunho desse episódio singular em que o seu Senhor abraçou humanamente de modo tão dramático, mas ao mesmo tempo com completo assentimento, a vontade do Pai, sem que, porém, da parte dos seus, tivesse podido contar com a mais remota solidariedade.

E não é de excluir que o facto mesmo do sono dos apóstolos possa ter sido literalmente sublinhado nos relatos da cena da Agonia, para pôr ainda mais de manifesto a sua radical incapacidade de estar e lutar com Jesus nesse momento decisivo. Será assim como que um símbolo da desunião que se instaurou entre os discípulos e Jesus (7). O paradoxo é deste modo acentuado até ao extremo, o que mais fortemente destaca, a nosso ver, a sua plena autenticidade histórica, em que cada um dos evangelistas nos introduz segundo a sua acentuação peculiar.

2. «PERMANECEI AQUI E VIGIAI COMIGO»

O episódio do Jardim das Oliveiras pode ser considerado de dois pontos de vista diversos, de importância desigual, mas ambos merecedores de atenta análise: a relação de Jesus com o Pai e a sua relação com os discípulos. Aquela é, evidentemente, a mais importante, mas também esta contém um profundo significado. Analisá-la-emos em primeiro lugar. 

EM CASA DO NEGOCIANTE ARNOUX



Tu detiveste-te várias vezes na escada, tão forte o coração te batia.
Uma das tuas luvas, demasiado justa, rebentou;
e, na altura em que enfiavas o rasgão pode debaixo do punho da camisa,
Arnoux, que subia atrás de ti, agarrou-te pelo braço e fez-te entrar.

A antecâmara, decorada à chinesa,
tinha uma lanterna pintada no tecto,
e bambus nos cantos.
Quando atravessavas o salão, tropeçaste numa pele de tigre.
Não tinham acendido os brandões,
mas dois candeeiros ardiam no toucador ao fundo.
A Menina Marthe veio dizer que a mamã estava a vestir-se.
Arnoux levantou-a até à altura da boca para beijá-la;
depois, querendo ser ele próprio a escolher na cave certas garrafas de vinho,
deixou-te com a criança.

Tinha crescido muito desde a viagem de Montereau.
Os cabelos castanhos caíam-lhe em compridos canudos ondulados
sobre os braços nus. O vestido, mais tufado do que a saia de uma bailarina,
permitia ver as barrigas das pernas rosadas,
e toda a sua gentil pessoa cheirava a frescura
como um ramalhete.
Recebeu os comprimentos do cavalheiro com ares sedutores,
fixou neles os olhos profundos,
depois, esgueirando-se por entre os móveis,
desapareceu como um gato.

EBEN NO WESTMINSTER TOWN HALL

UM BELÍSSIMO LIVRO

Não posso deixar de o recomendar vivamente.
Disponível em qualquer Hypermercado junto de si.

segunda-feira, março 24, 2014

CIRCENSE MÁXIMO

O Show...
Só-Crash voltou a emocionar a Nação. Não temos gladiadores. Nem sempre o futebol excita. Há, por isso mesmo, ainda uma enorme expectativa de que um dia Só-Crash habite uma cela ou tropece nas próprias palavras trapaceiras, no tronco caído na estrada da própria antítese em movimento. Enquanto isso não é possível, enquanto o tempo da cela não chega, o desporto disponível é vê-lo no grande Circo que montou para si: ou a cavalgar póneis, ou a fazer de bailarina no dorso do puro-sangue, ou no trapézio, moça que voa de trapezista em trapezista, ou na figura de palhaço rico ou na figura do palhaço pobre, ou a apresentar a entrada dos leões, ou a fazer de domador de tigres, ou a conduzir uma manada de elefantes ou a ser um desses elefantes. Só-Crash é o espectáculo e pelo espectáculo. Não lhe interessa nada a montanha de famílias que a sua pré-bancarrota arrojou para o vazio e a morte social. Importa somente que o Show tem de continuar, como aliás o Regime que o pariu.